sábado, 20 de janeiro de 2024

Das travessias intrínsecas

Lembro que eu devia ter por volta de dez anos, estava jogando bola na frente de casa quando ouvi o burburinho de que meu irmão tinha sido atropelado. Entrei em choque e fui até a esquina repetindo a todo instante “meu irmão não, meu irmão não”.
Ao chegar na esquina, meus pais já tinham buscado meu irmão para levar para o hospital. Diante do caminhão, estava a bicicleta destruída que eu recolhi para levar para casa, o tempo todo repetindo “meu irmão não”.
Quando cheguei de volta em casa com o que restava da bicicleta, entrei para debaixo de uma mesa que tinha nos fundos e seguia repetindo “meu irmão não, meu irmão não”.
No dia dois de janeiro, quando o João Pedro veio correndo pra mim gritando “pai, eu quebrei” e me mostrou o braço com uma fratura quase exposta depois de cair do skate, eu reencontrei de novo aquele guri assustado que há cerca de trinta anos atrás havia ficado apavorado debaixo da mesa.
No entanto, neste dia eu não podia simplesmente chorar abraçado nas minhas pernas, precisava socorrer um filho com o braço quebrado, ao mesmo tempo que não podia deixar o irmão mais novo dele que estava com a gente se apavorar com a situação.
Estávamos na praça e nós três caminhamos duas quadras e meia, que pareciam intermináveis, para que eu pudesse deixar o Francisco na casa da avó e correr pra Unimed com o João.
Por fora, eu era a pessoa mais forte do mundo conversando para que nenhum dos guris se desesperasse com o que aconteceu; por dentro era aquela mesma criança assustada debaixo da mesa.
Foram mais de quatro horas desde que ele veio até mim apavorado depois da queda até a nossa saída da Unimed, após passar o efeito da anestesia que ele teve que tomar para que os médicos recolocassem o pulso de volta no lugar.
Durante esse tempo, tive que enfrentar sozinho a angústia da espera e escutar do médico sobre a gravidade da lesão que por muito pouco não foi uma fratura exposta.
Neste dia fui dormir depois das seis da manhã, precisava voltar pelos corredores da memória para dar a mão aquele guri assustado debaixo da mesa. Ele precisava do meu abraço e sem dúvida eu precisava mais ainda do abraço dele.

Abraçado a esse guri assustado, vívido nas minhas lembranças, falei em seu ouvido: “jamais sinta vergonha por esse momento de vulnerabilidade, porque isso vai te fazer mais forte e um dia outro guri com medo vai precisar dessa tua força, porque ele só vai poder contar contigo”.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Falando em picanha

Há quem diga que nos tempos atuais é preciso dizer o óbvio. Penso que na verdade estamos em uma parte mais funda do poço chamado ignorância, visto que se faz necessário explicar o óbvio.

 

Ainda há poucos dias nas redes sociais estavam precisando explicar que a “picanha” da campanha eleitoral é uma metáfora para dizer que... ah! Não vou explicar o óbvio.

 

(Vozes na minha cabeça:

-Tu não sabe o que significa essa metáfora, né?

-É claro que sei.

-Então o que significa.

-Eu sei, mas não vou dizer.

-Então fala, se tu sabe.

-Sei, melhor que tu.)

 

Enfim, quem frequenta o supermercado e testemunhou a inflação corroer o poder de compra certamente consegue entender o significado desta metáfora.

 

Mas alguns abençoados precisaram que fosse explicado para eles que não haverá distribuição de picanha e cerveja num guichê. Citando o pensador contemporâneo Casimiro: “Hoje em dia é necessário dizer o óbvio. [...] O óbvio virou genial!”

 

Só queria escrever um pouco sobre esse assunto porquê sonhei que estava chovendo picanha. Acho que vou jogar no bicho...

quinta-feira, 2 de junho de 2022

MUITO ALÉM DA TATUAGEM NO TOBA

A polêmica do momento de alguns artistas sertanejos versus a Anitta trata de um assunto sobre o qual já escrevi algumas vezes (não estou falando da tatuagem no toba dela), o jabá.

Em entrevista ao canal Corredor 5, Kamilla Fialho, ex-empresária da cantora Anitta, contou em um vídeo viralizado que pagava para tocar música da funkeira nas rádios, mas que empresários do sertanejo cobriam oferta para boicotá-la.

Há tempo que se naturaliza a relação promíscua entre gravadoras/produtores e rádios que são cooptadas para rodarem apenas as músicas dos artistas que pagam altos valores, o que explica porque estão dominando as paradas de sucesso há tanto tempo.

A cereja do bolo neste assunto é que passam anos e as pessoas não fazem a mínima questão de buscar conhecimento (conforme já aconselhava o ET Bilú em 2010) e seguem espalhando ignorância e mentiras sobre as leis de incentivo à cultura.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, criou-se o paradoxo da besta nativista, que é basicamente um ser que milita nas redes sociais contra as leis de incentivo a cultura, ao mesmo tempo em que reclama que os festivais de música nativista estão deixando de acontecer.

Hoje a cena do filme "Dois filhos de Francisco", onde o pai de Zezé di Camargo passa o dia ligando para uma rádio para que a emissora tocasse a canção de seu filho, não passa de uma imagem romântica que os próprios protagonistas ajudaram a fazer desaparecer.

terça-feira, 29 de março de 2022

O LIMITE DA HONRA E AS FRONTEIRAS DO HUMOR

No domingo o mundo assistiu incrédulo a cena do Will Smith dando um tapa em Chris Rock durante a cerimônia de entrega do Oscar. No grupo de comediantes, onde fiquei sabendo do fato em primeira mão, os participantes se perguntavam se era de verdade ou encenação (uma mistura de meme de Batman dando um tapa no Robin com Dona Florinda batendo no Seu Madruga).


Fui pesquisar em busca de notícias que pudessem me informar o que havia acontecido. O assunto rapidamente se tornou pauta nas redes sociais, inundada de discursos que visavam justificar a agressão perpetrada por Will Smith.


Achei curioso que a mesma sociedade que algumas semanas atrás condenava Maria do BBB 22 pelo episódio do balde, agora aplaudia a agressão do Will Smith, e, pasmem, com o discurso de defesa da honra do século retrasado.


Diante de tantos discursos a favor da família, que mais lembravam o impeachment da Dilma na Câmara dos Deputados, meu interesse era saber o que exatamente tinha sido falado.


Quando cheguei a piada pura, despida dos filtros dos interlocutores intermediários, não encontrei qualquer conotação depreciativa. A piada de Chris Rock é: "Jada, te amo, G.I. Jane 2, mal posso esperar para ver" fazendo referência a um filme protagonizado por Demi Moore em que a atriz aparece de cabeça raspada por estar servindo o exército.


A comparação não é feita como algo pejorativo ou depreciativo, pelo contrário, visto que a protagonista do filme é uma figura feminina forte e determinada. Se a comparação fosse com a intenção de ofender, seria melhor compará-la com o personagem Walter White de Breaking Bad, ou com Arthur Aguiar que tem o cabelo raspado e pulou a cerca no casamento.


Se quisesse fazer piada ofensivas à condição da Jada, Chris Rock diria “Ei, Jada, belo corte de cabelo. Posso imaginar a felicidade do Will ao não encontrar mais tufos de cabelo do ralo do banheiro. Se bem que ele deve ter perdido a diversão de bater uma no banho e ver a porra indo embora grudada num fio do tufo de cabelo que nem um tarzan de semen indo pro esgoto. O Will revelou que sem o som do prestobarba na parede, o dia de transar é sempre uma surpresa.”


Se eu fosse o Chris Rock e soubesse que ia levar um tapa teria feito estas piadas, pra sentir no fim que valeu a pena. E depois do tapa diria: “Levei um tapa do Will Smith. Ele bate que nem um branco num campo de golfe. É fácil entender porque não ganhou o Oscar interpretando o Muhammad Ali.”


O Will Smith, óbvio, ia subir de novo no palco  e dar um soco no Chris Rock, ao que ele responderia: “Pelo visto fiz piadas mais cabeludas que o alienígena de Independence Day, ele apanhou só uma vez!”


Minha imaginação foi longe, mas apenas para dar exemplo de piadas que realmente seriam ofensivas, diferente da piada do Chris Rock que não tinha qualquer viés depreciativo. Evidente que pelo assunto ser sensível, tanto Jada quanto Will podem se sentir ofendidos, porém o direito de se sentir ofendido não torna a agressão um ato legítimo.


Da mesma forma que os discursos recheados de supostos valores morais também não legitimam a violência, apenas revelam os instintos mais primitivos de pessoas que condenam a guerra do presente, enquanto comemoram a guerra do passado, porque está lhe forjou os valores que fazem acreditam que a sua violência é legítima.


Will Smith já se manifestou buscando se retratar e pediu desculpa ao Chris Rock pelo episódio, enquanto isso temos defensores da honra que ainda não conseguiram admitir o erro do outro, que seguem na tentativa de justificar a violência em nome da sua subjetiva “honra”.


Muitos homens que nas redes sociais defendem a honra da mulher, mas que no mundo real, num tapa, perderiam ela pra um mendigo…


quinta-feira, 25 de novembro de 2021

LEITE NÃO DERRAMADO

Nos primeiros meses nenhum dos amigos que estavam presentes no fatídico dia no Bordel da Adelaide tocava no assunto, com receio do Osvaldinho se sentir constrangido. Mas sabe como são os amigos, não demorou para que Esteves, testemunha ocular da história, começasse a fazer piada com a situação.

Na primeira vez que Esteves contou a história, apenas entre os presentes no bordel, Osvaldinho rezingava e balançava a cabeça. Da segunda vez em diante, não querendo deixar os lapsos de memória do Esteves estragar as viradas da história, Osvaldinho passou a aparar as arestas da narrativa que não eram fieis aos fatos.

Mas foi num churrasco, depois do futebol com outros amigos que não estavam presentes, que Osvaldinho assumiu a redação final da história. Enquanto Esteves se perdia em descrições poéticas e acessos de tosse, ele bateu no ombro do amigo e tomou a frente como contador do causo.

A partir daí, Osvaldinho recapitulou o que já havia sido contado pelo amigo, de que ele estava deprimido desde que a mulher havia o abandonado (ela tinha fugido com o atirador de facas do circo). Depois de duas semanas trancado em casa, Esteves foi visitá-lo com a ideia fixa de convencê-lo a irem no Bordel da Adelaide com mais alguns amigos.

No começo Osvaldo foi renitente à ideia, mas Esteves era conhecido por além de ser poético, ser bastante persuasivo quando o assunto era convencer alguém para cair numa noite de farra sem arrependimentos. Não que não existissem arrependimentos das noites de farra, o que costumava não existir eram muitas lembranças destas noites de farra para se arrepender.

Porém, para azar de Osvaldinho e sorte das histórias engraçadas, Esteves jamais se esqueceu da cena de Osvaldinho chorando nos braços da garota de programa. No caminho de volta pra casa Osvaldinho ia em silêncio, enquanto os amigos com ar de deboche perguntavam se ele tinha começado a chorar quando ela disse o valor do programa.

Foi só depois da primeira vez que Esteves tocou no assunto, um tempo depois do acontecido, que Osvaldinho contou que começou a chorar depois que tirou a roupa e a garota de programa fez uma expressão igual à que sua ex mulher fazia quando ele tirava a cueca (só faltou comentar “que ele podia lavar as roupas íntimas no banho”).

Quando todos olhavam para Osvaldinho com o rosto compadecido pelo tom dramático desta parte da história, ele faz uma breve pausa olhando nos olhos de cada um e encerra dizendo:


-Mas o mais triste dessa história é que quando o Esteves chegou no quarto, minhas lágrimas caiam sobre o meu pau e ele disse que não era o momento de chorar sobre o leite derramado.

@oantonioguadalupe

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

PATO ASSADO COM LAMBORGHINI

O começo em qualquer profissão não é fácil e com a advocacia não é diferente. Antes de montar o meu escritório e ter liberdade para trabalhar (ou evitar a fadiga como diria o Jaiminho carteiro), tive que me sujeitar a trabalhar para outros escritórios.

O primeiro escritório que eu trabalhei era um ambiente alegre e descontraído. Foi uma experiência de muito aprendizado, mesmo assim não completei um ano de trabalho lá, acabei saindo em busca de outras oportunidades na capital.

No escritório que trabalhei logo em seguida, embora pagasse melhor, meu trabalho consistia em saber fazer cópia e cola de petições com adaptações para o caso concreto. Não fiquei nem uma semana lá, mas entendi porque perguntaram se eu gostava de montar quebra cabeça na entrevista de emprego.

De volta a Pelotas, trabalhei noutro escritório, experiência que durou alguns poucos meses. Neste período de trabalho entendi o que Zeca Baleiro queria dizer ao cantar que despediu o seu patrão porque ele roubava o que ele mais valia...

É uma falsidade integrar a equipe de um escritório como um advogado associado quando te exigem exclusividade. No contrato de trabalho te concedem liberdade de atuação, mas querem que essa liberdade seja exercida apenas para os clientes do escritório. Uma liberdade profissional semelhante à de um cachorro preso pela corrente no vai e vem.

Embora não tenha ficado muito tempo, neste escritório cheguei a participar da festa de final de ano, onde fui presenteado com um vale compras de 200 reais na Lojas Krause. Foi a única vez que comprei alguma coisa lá, além do vale presente precisei completar com mais 300 reais para comprar o tênis mais barato da loja.

Neste escritório houveram dois episódios que me deixaram claro que receber ordens não era o meu forte. A primeira foi uma vez que eu tinha uma audiência em Bagé, o sócio do escritório, disse que eu poderia escolher se eu iria para audiência com o meu carro, de ônibus ou ainda com o carro da empresa.

O problema era que a empresa exigia que eu fosse com o carro deles, um fiat uno, e o motivo: tinha um material de obra para levar para a outra cidade. Fiquei indignado de me usarem para fazer frete para a empresa, isso era uma afronta com a minha dignidade profissional e acima de tudo, acúmulo de função.

Mas a gota d’água pra mim foi quando um dia, no final do expediente, aparece o sócio do escritório, feliz da vida com o seu iphone de última geração na mão pra mostrar pra mim e outro colega um vídeo no youtube.

No vídeo em questão um desocupado com muito dinheiro teve a “brilhante” ideia de assar um pato com o fogo que sai do escapamento de uma Lamborghini. Então durante alguns minutos, que pra mim pareciam uma eternidade, eu tinha que assistir ao vídeo e fingir interesse, afinal, era o meu chefe.

Pra ser sincero quando ele entrou feliz da sala falando que haviam assado um pato com uma Lamborghini eu pensava “não sabia que a Lamborghini fazia forno, deve tá querendo concorrer com a Yamaha que faz teclados e motos.”

Quando me dei conta do que se tratava, eu pensava enquanto o vídeo rodava: “O que eu tô fazendo da minha vida? Esse cara feliz que tem um imbecil assando um pato com um carro de um milhão de reais é o meu chefe. Essa é a pessoa que paga o meu salário todo mês. Ou seja, se eu trabalhar duro durante muitos anos posso realizar o sonho desse idiota de assar um pato numa Lamborghini.”

Neste momento eu me dei conta que pra mim não dava mais para continuar lá, precisava pedir demissão. Estava decidido, esperaria alguns dias pra não dar na cara que o motivo era o vídeo e pediria as contas.

Depois de rodar o vídeo, sem desfazer o sorriso de felicidade do rosto ele perguntou pra mim e pro outro colega o que tínhamos achado. O outro cara gostava de carro e falou alguma coisa de cavalos de potência, ou qualquer coisa do tipo. Quando ambos me olharam, esperando minha resposta tudo que consegui pensar foi:

-É a air fryer mais cara do mundo!

@oantonioguadalupe

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

ESTAVA ESCRITO NAS CARTAS

Maurinho percebeu um clima tenso ao chegar em casa de mais um dia de trabalho. Em cinco anos de casamento, era a primeira vez que Isadora não o recebia na porta, de forma efusiva, com um beijo. Pelo contrário, permaneceu junto a porta da cozinha com as mãos na cintura parecendo um totem.

 

Durante alguns instantes, enquanto caminhava em direção a esposa, Maurinho se questionava se havia esquecido do aniversário de Isadora, ou alguma outra dada importante da relação, tentando entender como ele poderia ter dado causa ao comportamento esquivo dela.

 

Isadora, sem tirar as mãos da cintura, desviou o rosto do beijo que Maurinho tentou lhe dar depois de caminhar em sua direção. Sem entender a atitude, até por ter certeza que não havia esquecido de nenhuma data nos últimos seis meses (Isadora havia registrado todas as datas importantes para o casal na agenda do telefone dele), questionou:

 

-O que aconteceu? Fiz alguma coisa pra ser recebido deste jeito?

-Pois me diga você, Maurinho, fez alguma coisa pra ser recebido deste jeito?? -devolveu Isadora, sem tirar as mãos da cintura-

 

Maurinho recuou com a expressão pensativa, interrogando a si mesmo sobre cada acontecimento do dia procurando uma pista do que poderia ter motivado essa recepção de Isadora. Sem fazer ideia, decide blefar:

 

-Desculpa, amor. Não respondi a sua última mensagem dizendo que me amava. Hoje foi corrido no trabalho, visualizei e acabei esquecendo de responder. Me perdoa?!

-Você acha que estou assim por causa de uma mensagem não respondida, Maurinho? -replica Isadora de forma exultante-

-Então o que aconteceu hoje depois que sai pra trabalhar pra você ficar deste jeito?

-Eu fui na cartomante, Maurinho!

-Você, só pode estar de sacanagem comigo Isadora! Cartomante?! O que ela disse, que eu tenho outra?

-Exatamente! Seu cafajeste!!

-Isadora, isso é tudo charlatanismo. Essa gente é especialista na psique humana. Ela percebe o que a pessoa tem medo de ser traída, aí ela usa isso pra enganar as pessoas com as cartas. Pode ver que a mesma carta tem um significado diferente pra cada pessoa. Garanto que ela te falou que tinha traição quando saiu a carta do enforcado.

-E foi mesmo. Ela disse que o enforcado significava traição.

-Estou dizendo Isadora. Essa carta do enforcado é o coringa da desgraça. Pra mim a cartomante disse que o enforcado significava que eu ia ficar desempregado.

-Ela não errou, na outra semana o seu chefe te mandou embora!

-Coincidência, Isadora. Minha despedida foi consequência da crise na economia, só entrei pras estatísticas como milhões de brasileiros. Ela viu que eu não estava inseguro com meu casamento, então jogou um verde com a minha vida profissional.

-Ela nunca errou... -disse Isadora hesitante-

-Não deixa uma charlatã estragar o nosso casamento.

 

Isadora abraçou Maurinho e prometeu não levar à sério o que ouviu à tarde da cartomante afamada por nunca errar uma previsão...

 

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De madrugada no celular de Madame Giselle chega uma mensagem de Maurinho: “Ela sabe, não podemos nos ver mais!”...

 

@oantonioguadalupe

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

NOS GRUPOS, NA SAÚDE, NA DOENÇA



Domingo a noite o grupo de WhatsApp “FUTEBOL DE QUARTA ⚽️🍻🥩” recebeu uma mensagem de Augusto, quase com o tom solene de um comunicado:

Augusto:

_Renato, preciso que você adicione uma pessoa importante ao grupo!_

Renato:

_Quem??_

Augusto:

_A minha esposa!_

Leonel:

_Tá de brincadeira, Augusto?_

Renato:

_Já não basta ela de leão de chácara toda semana no dia do jogo_

Leonel:

_É a única esposa que vai em todos os jogos, fica até na hora do churrasquinho e da cerveja._

Renato:

_Pois é, já basta na quadra que a gente teve que parar de falar de put4ria e diminuir os palavrões pra não ofender os ouvidos cristãos da Cláudia._

Augusto:

_Gente, sem brincadeira, preciso que adicione ela por questões judiciais?_

Renato:

_Que papo judicial é esse que tua mulher tem que fazer parte do grupo? Já disse que só adiciono tua mulher no grupo se ela entrar em campo e marcar dois gols. Não vem com teus truques, Augusto._

Augusto:

_Dessa vez é verdade, Renato. Ela entrou na justiça e conseguiu uma liminar que garante a ela o direito de ser adicionada a todos os grupos de WhatsApp que eu faço parte, só ficam de fora os grupos do trabalho._

Leonel:

_Vamos assinar tua carteira então, assim o grupo passa a ser de trabalho!!!_

Renato:

_hahahahahahaha, essa foi boa, Leonel_

Augusto:

_Adiciona, Renato. Se não adicionar o japonês da federal vai te levar a intimação as seis da manhã com o mandado liminar do juiz._

Renato:

_Vou correr esse risco, Augusto. Na quadra, pelo menos, vou ver tua mulher só uma vez na semana, no grupo terei um pacote ilimitado de Cláudia._

No outro dia pela manhã Renato recebe uma intimação do oficial de justiça que ordenava que Cláudia, esposa de Augusto tinha o direito de participar de todos os grupos de WhatsApp do marido.

Aos poucos o grupo foi parando, começaram as desculpas dos colegas de que não poderiam jogar naquela semana e Augusto nunca mais jogou futebol com os colegas.

Enquanto isso, num grupo sem o Augusto, toda semana marcam futebol em outro dia da semana e em outra quadra, do outro lado da cidade, para não correrem o risco de serem flagrados.

@oantonioguadalupe

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

MESMO DEPOIS DA MORTE, O SHOW PRECISA CONTINUAR


Os responsáveis que controlam a programação dos canais de televisão já entenderam que há uma mórbida curiosidade no ser humano que faz com que ele diminua a velocidade do carro ao passar por um acidente.

E é buscando satisfazer essa curiosidade mórbida que os programas de televisão têm uma forma especial de explorar a dor de uma tragédia, para transformá-la num espetáculo que mantenha os telespectadores com os olhos fixos na tela.

Desta forma, são chamados especialistas em engenharia aerodinâmica para dar explicações técnicas que não passam de meros palpites sobre um acidente aéreo; familiares são emparedados por microfones, sem qualquer respeito a dor do luto.

Antevejo que em breve os programas dominicais adotarão uma visão espiritualista diante de alguma tragédia que se abata sobre algum artista de grande apelo popular e resolva levar um médium espírita de grande badalação para o palco do programa para tentar contato com o artista recém desencarnado.

Consigo imaginar o diálogo entre o(a) apresentador(a) e o média, que seriam mais ou menos assim:

-Estamos todos consternados diante dessa tragédia. Assim como muitos fãs estamos com saudade, por isso trouxemos um médium que vai tentar contato com a nossa saudosa artista que nos deixou faz dois dias em um acidente aéreo.

-Pois bem -tenta explicar o médium-, ocorre que o desencarne dela é recente. Conforme explica a doutrina espírita, logo após a morte o espírita fica em estado de perturbação e nestes casos de acidente de avião e de carro, esse período de perturbação costuma ser um pouco maior.

-Entendo, então pelo acidente ser recente não vamos conseguir contado com nossa artista tão amado por todo o Brasil?!

-Exatamente, deve levar algum tempo até o espírito dela recobrar a consciência.

-Mas sr. médium e se a gente tentasse contato com alguém que morreu há um pouco mais de tempo? Pra ver se alguém avista ela no mundo espiritual. Tem aquele artista que gravou uma participação no disco dela, que morreu tem uns três anos, de repente ele pode nos informar se avistou ela depois do acidente...

@oantonioguadalupe

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

ELES, OS BÁRBAROS PELOTENSES!

Sempre fui um pelotense muito orgulhoso da história cultural de Pelotas, do tipo que repetia a explicação que ouvi numa palestra do professor Mario Osório sobre o motivo das companhias de teatro se apresentarem duas vezes na cidade e apenas uma na capital.

Tinha decorado o discurso de que devido à prosperidade socioeconômica dos tempos das charqueadas, a cidade passou a se tornar polo cultural da arte e da erudição, através da criação de sociedades literárias, companhias dramáticas e saraus, o que a levou a ser reconhecida como “Atenas do Sul”.

Falava sempre com muito entusiasmo dos expoentes da cultura pelotense, como Lobo da Costa, João Simões Lopes Neto e Yolanda Pereira, a primeira brasileira a conquistar o título de Miss Universo em 1930.

Mas confesso que eu só era entusiasta desse discurso fora de Pelotas. Sempre que estava em viagem noutra cidade e perguntavam de onde eu era respondia tudo isso orgulhoso.

Porém, quando por algum motivo alguém vinha visitar a cidade, nunca me senti à vontade de repetir toda história de opulência cultural da Atenas do Sul, visto que as pessoas que ouviam essa história poderiam testemunhar em qualquer esquina uma camionete depositar um saco de lixo na calçada e um carro de luxo passar sem parar para os pedestres na faixa de segurança.

Receoso das perguntas que poderiam advir desta incongruência visível a olho nu, com o tempo fui bolando o meu próprio revisionismo histórico que explicasse a queda nos costumes da elite pelotense.

Foi assim que comecei a explicar, antes mesmo de qualquer pergunta, que no final do século XIX, Pelotas sofreu com diversas invasões bárbaras, sendo que a cidade foi tomada por vikings que a invadiram através do porto de Rio Grande.

Finalizo sempre dizendo que esta é uma parte da história pouco comentada, o povo pelotense tem vergonha de admitir que foi invadido por Rio Grande...

@oantonioguadalupe

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

UM DIA DEPOIS DO HALLOWEEN

Cíntia acorda ainda atordoada por causa da bebida, a festa de Halloween do Condomínio tinha sido bem animada. Ela e o marido se divertiram como há muito tempo não se divertiam depois que se casaram 11 anos atrás.

Adalberto acorda com o grito de susto da mulher no banheiro. Ao abrir a porta se depara com a imagem da mulher, sem calcinha diante de um daqueles espelhos de fazer sobrancelha:

-O que aconteceu, meu amor? Você me assustou com esse grito.

-Olha isso Adalberto! – fala Cíntia, sarrando o ar, apontando para as partes íntimas–

-Olhar o que? – pergunta Adalberto, não muito bem acordado –

-Isso Adalberto! Minha periquita está azul! O que aconteceu nesta festa de Halloween?! Fui convidada pra fazer uma propaganda erótica da tim?! Só falta ter tatuado “viver sem fronteiras” no toba.

-Agora percebi... – diz Adalberto, tirando ramela dos olhos – Parece a Smurfette!

-Sem piadas infames com a minha xavasc4, Adalberto. Preciso ir ao meu ginecologista, isso pode ser grave.

-Claro que é grave, Cíntia. Se tua chana tá azul é sinal de que torce pro grêmio. Se vai pra zona não volta mais.

-Piada de futebol com a minha buc3t4, Adalberto?! Chana da zona é aquela tamanca de beiço que a tua mãe tem.

-Perdão, foi mais forte do que eu. Mas o que aconteceu de diferente ontem a noite na festa? Será que foi algo que você comeu ou bebeu?

-Eu não comi nada diferente e só tomei caipira de limão, não gosto destas bebidas doces.

-Lembro que a caipirinha te deixou bem alegre.

-Tá me julgando por um pilequinho, Adalberto?

-Não, é que falando em coisas diferentes, ontem, depois da festa de Halloween... A gente transou como há muito tempo não transava.

-Eu lembro disso, mas o que tem a ver com a minha x3r3ca tá azul?! Vai dizer que ela é tipo aqueles maços de dinheiro que explode tinta em filme de assalto a banco?! Se tu consegue encontrar meu ponto G numa noite de festa e bebedeira minha periquita fica azul?!

-É, pra ela estar azul não tenho explicação. Já me vesti, eu te levo ao médico.

-Espero que não seja nada grave. E a sua azia Adalberto, passou?

-Melhorou depois que tomei um antiácido. Sempre fico assim quando como muito doce, abusei dos pirulitos pinta língua ontem na festa de Halloween...


@oantonioguadalupe

Das travessias intrínsecas

Lembro que eu devia ter por volta de dez anos, estava jogando bola na frente de casa quando ouvi o burburinho de que meu irmão tinha sido at...