sábado, 19 de dezembro de 2020

A história por trás das canções: Pra renascer na garganta


Conheci o poeta Carlos Omar lá pelo ano de 2001, ele estava em Pelotas por ocasião do CIRIO - Canto interuniversitário rio grandense. Já conhecia a obra, conhecia agora o criador. 

Neste primeiro contato eu, um jovem compositor afoito, falava de parceria para ele, que me disse carinhosamente que uma parceria pra ele só podia nascer depois dele tomar um trago com o candidato a parceria.

Seguimos contato por meio virtual e um dia no ano de 2005, de passagem por Pelotas antes de se dirigir para um festival de poesia em São Lourenço do Sul, me convidou para uma prosa regada a cerveja.

Depois de termos saído para buscar mais um fardo de cerveja, voltamos e o Carlos Omar sentou-se diante do computador e me disse: me diz que tema que tu tem travado?!

Eu colecionava uma série de frases metafóricas que eram o mote de uma série de poemas que nunca escrevi. Sem titubear falei: pra renascer na garganta. 

Além desta letra Carlos Omar ainda escreveu mais duas, estando uma delas ainda inédita. Alguns meses depois eu mandava para Santa Maria uma fita k7 com a melodia que eu tinha feito, que recebeu alguns retoques do Tuny Brum que gravou o tema para nós. 

Essa foi minha primeira música classificada em festival, lembro do Omar me ligando de madrugada pra avisar que passamos a música.

E em setembro de 2006 minha primeira música classificada em festival era interpretada pelo Ivo Fraga, que na época nas raras vezes que subia no palco de algum festival era para cantar músicas do Jaime Vaz Brasil e do Ricardo Freire.

Lembro que na final do festival eu estava vendo o Ivo Fraga cantar de forma brilhante e só pensava: se eu tomasse Coca-Cola tu não tava aí cantando.

DE ESPORAS E RUMOS

Pingo de cacho quebrado,
adaga sob os pelegos;
cantam esporas nas pedras
pra avisar quando chego...
Guardo horizontes nos olhos,
distâncias no coração...
Risquei os mapas da pampa
de rédea firme na mão!

Garanto o meu sustento
só com a força do braço
e quando falta serviço,
me viro bem com meu laço!
Fiz fama pelas carreiras
e nas carpetas de truco,
se a sorte não negaceia
eu multiplico meu lucro!

Gastei esporas e rumos
domando estradas e potros;
se fiz cavalos de lei
foi sempre pra o andar dos outros...
Herdei distâncias e penas,
poncho com marcas de bala
e uma garrucha sem nome
que “hace tiempos” não fala!!

Não saco as armas do cinto
pra brigar por ninharia,
nem sujo as mãos com o sangue
da inveja ou da covardia...
Mas quando o baile se encrespa
e o candeeiro se apaga
pra garantir a coragem,
a precisão de uma adaga!

Conheço bem os atalhos
que existem pelo caminho;
às vezes levam às flores
n’outras conduzem a espinhos...
A estrada é feita de rumos,
sempre chegar ou partir;
e eu sigo andando a esmo
como quem foge de si...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

UMA FÁBULA FESTIVALEIRA: O CANÁRIO BELGA E O ANU

Segundo contam na minha terra, alguns anos após Noé atracar com sua jangada nas margens do Rio Mississipi, a bicharada que desembarcou por aquelas bandas resolveu fazer um festival de canções selvagens, como forma de enaltecer os valores que nutriam por encontrar aquela terra abençoada após o dilúvio. 

Com o tempo foram surgindo outros festivais de canções selvagens em outras regiões, cada um incorporando as características locais na sua forma de conceber e fazer a canção selvagem. 

Com o tempo, alguns animais começaram a dizer que a sua canção selvagem era a canção selvagem autêntica, taxando de canções domesticadas todo o canto que se furta do brado selvagem. 

Pois foi depois do tradicional Arizona da Canção Selvagem que um canário belga teceu críticas ao conjunto da obra apresentado, do alto do seu galho falou que quase tudo que havia escutado era a mesmice que ele já escutava desde o tempo do dilúvio. 

Pois não é que um anu, com tempo de sobra, achou que o canário estava falando da obra dele e respondeu cheio de dedos, ou melhor cheio de bicos, levando a crítica para o lado pessoal. 

O canário belga respondeu que crítica não era dirigida a obra do anu, mas sim ao cenário da canção selvagem que canta o romantismo de uma selva que é amada nas canções, porém carbonizada no mundo real. 

O anu ficou furioso com a resposta e se pôs a esbravejar contra o canário belga, disse que música não é ciência, que mesmo ele que nunca estudou arquitetura tinha um ninho de barro, que o canário belga nada entendia de sentimentos e o lugar dele era fora dos palcos, da antes frondosa árvore das canções selvagens. 

E se foi o anu, batendo asas e assoviando “meu biquíni de bolinhas” pelo caminho... 

Atônito com a cena, o canário belga comentou com um joão de barro que trabalhava alguns galhos abaixo: 

-Tempos insólitos estes em que um anu, que não toca nem berimbau, acha que pode definir se o lugar de alguém é ou não no palco. Quando se compõe uma obra, sem se tocar nada, não perde horas estudando escalas, harmonia, praticando, instrumento, assim sobra tempo pra tomar as dores por qualquer crítica. Nem mesmo as críticas que faço são novas, desde a Carta à Mississipi em 81 se fala disso. Lamentável que existam mentalidades que acreditam que podem definir a quem o palco irá servir, que não enxergam o palco como um espaço de todos. Porém, quando se faz mais do mesmo, fica fácil até pra quem não toca nada se destacar. 

Nisso o João de Barro interrompe: 

-Do que tu tá falando, canário? Desculpa, não escutei por causa do barulho das ferramentas, tô terminando uma obra nova pro anu...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

O ENGAJAMENTO DA ESTUPIDEZ


Tenho notado que a estupidez sempre gera ibope nas redes sociais. Os comentários mais estapafúrdios, desprovidos de bom senso, que buscam um pré-sal do ridículo acabam sendo, muitas vezes os mais comentados de uma postagem na rede social.

Tem algum tempo que tenho refletido buscando entender qual é o impulso que leva a esta alta demanda de respostas para os comentários mais imbecis. Inicialmente eu acreditava que fosse algum tipo de impulso que decorresse de uma necessidade de não deixar o absurdo sem resposta, algo como “se a gente não responder isso passa a ser verdade”.

Porém a demanda de respostas costuma ser tão grande que essa teoria me pareceu insuficiente para responder, afinal de contas, se uma pessoa respondeu, está respondido.

Foi então que comecei a entender que o impulso mais forte que atua neste momento é o “olha lá um idiota comentando merda na rede social, vamos lá refutar as idiotices que ele tirou do whatsapp com argumentos.” É um instinto de prevalecimento que vigora nesta hora, a possibilidade de tripudiar de uma pessoa que claramente abandonou qualquer possibilidade dos neurônios fazerem uma sinapse.

É fácil de bater, costuma não entender ironia, o que torna tudo mais engraçado. Pessoas que acreditam que se elas tiverem um canhoto do próprio voto podem evitar ou até mesmo comprovar uma fraude. Convenhamos que não vale a pena desperdiçar pensamento lógico e racionalidade com quem defende essa ideia, tipo, a pessoa acha que se ter um canhoto do próprio evita fraude.

E faz como, chega alegação de fraude no TSE aí os mesários são convocados pra pegar os canhotos tudo de volta pra conferir?! Se a pessoa é tipo eu que não lembra onde guardou o comprovante? Meu voto vai contar como nulo na recontagem?! Esse é o tipo de pessoa que se dizem que tem pau pequeno exige recontagem...

Agora, voltando ao impulso, o grande ponto é este, a excitação intelectual que as pessoas sentem ao poder expor a ignorância do outro, desfiando seus mil e um argumentos cientificados, recheados de dados, dando um verniz de intelectualidade para algo que merece apenas escárnio e deboche. O tiozão fala que a terra é plana e a caixa de comentários vira um seminário da USP.

E o pior é que o astro é o terraplanista, que se sente importante porque teve inúmeras respostas pra imbecilidade que ele escreveu. Pra uma mentalidade formada através de uma lavagem cerebral perpetrada através de fakenews, o volume de respostas acaba tendo um efeito validador.

Na cabeça dele tá pipocando “pra tá toda essa gente me respondendo é porque eu disse algo muito foda”. Isso faz ele se sentir importante, alguém que detém uma grande verdade que querem calar. Então quando maior for o espancamento intelectual, mais as pessoas que batem se sentem satisfeitas de ter um judas para apedrejar.

E do lado desfavorecido intelectualmente, há apenas o reforço das ideias já pré-instaladas, gerando o sentimento de validação porque tem um monte de “esquerdopata” tentando “calar” esse grande portador da verdade suprema que lhe foi enviada por Deus através de um grupo no whatsapp.

Assim perpetua-se um eterno ciclo que longe de estabelecer qualquer diálogo, qualquer crescimento, apenas reforça a polaridade que há tempos está vigendo no país. Não se leva a sério este tipo de pessoa e seus discursos.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

O artifício do não pensar


Há quem suponha que pensar seja algo tão natural quanto respirar. Pelo que temos visto nos últimos tempos, se pensar é como respirar, estamos vendo peixes lutando para viver na terra. 

Biologicamente podemos definir o pensar como uma sinapse, e embora todo ser humano seja capaz de realizar uma, espanta a incapacidade de exercer raciocínios minimamente lógicos e coerentes. 

Assistimos, espantados, a internet jorrando na nossa cara toda hora um mar de seres “não pensantes”, que muitas vezes exercem influência em um rebanho de outros seres que abdicaram da capacidade de pensar. Entregar a tarefa de refletir a outra pessoa parece ser a grande marca da sociedade da adesão. 

As vezes parece que as pessoas que escreviam aqueles absurdos (?) que apareciam nas pérolas do Enem do Programa do Jô tomaram conta das redes sociais. A gente lê cada absurdo que fica se perguntando “como é que pode?!” 

E é algo diferente de ignorância, mas sim um não pensar mesmo, que costuma sempre vir coberto por uma extensa camada de arrogância. Aí está o paradoxo, o dilema de Schroedinger dessa gente, eles tratam o seu não pensar como um saber. Eles são simplesmente investidos do verdadeiro saber, um saber que não foi contaminado pelo marxismo cultural. 

O saber se instala na cabeça destas pessoas como um aplicativo, é instalado no telefone. (O saber é construído aos poucos, antes de caminhar é preciso engatinhar, mas esse povo acredita que pode voar. E se disserem que vão morrer ao pular o prédio, que a lei da gravidade não é só uma leizinha, eles vão dizer que isto é apenas a sua opinião. Ao se quebrar todo no chão, jogarão a culpa em você porquê torceu contra) 

Para esse pessoal Newton devia estar lendo Paulo Freire. 

O lugar que o não saber ocupa, ou melhor, desocupa. Acaba sendo preenchido com verdades absolutas, normalmente ditadas por uma “autoridade” que se estriba em valores nitidamente conservadores. 

Uma espécie de o mestre mandou que acontece num nível mental. O espaço do não pensar propício para heróis, grandes salvadores, seja da humanidade, seja da pátria. O campo do não pensar é propício para o messianismo. 

(Pequena reflexão, parece interessante que tenha sido preciso inventar o diabo, sendo muito reforçada a sua imagem pelas igrejas neopentecostais, visto que a imagem do salvador messiânico prescinde de um inimigo, que Jesus, ao que se sabe, não teve, ao menos não desta forma.) 

Para que se entenda, o espaço do não saber precisa ser ocupado para que funcione o mestre mandou, esse espaço precisa ser preenchido com o messianismo, com o inimigo imaginário sobre o qual vai recair a culpa de todos os males (do mundo e da pátria). 

Esse vazio é preenchido também com o consumismo, o que explica o manifesto dos “não pensantes” ao exigirem a abertura do comércio, num teatro onde fingem preocupação com os que necessitam trabalhar na pandemia, mas buscam apenas minimizar os prejuízos ao seu lucro. 

O hospedeiro do não pensar precisa do consumismo, pois são os símbolos do consumismo que sustentam o seu status, por isso é tão comum o não pensante ostentar carros grandes para ostentar o seu “sucesso”. Veja que quando a pessoa abdica de pensar, ela não se contenta apenas em ter, ela quer ter o da marca tal que significa ostentação e sucesso. 

Preenchido esse espaço do não pensar, com verdades absolutas alicerçadas em crenças inabaláveis, não sobre espaço para a reflexão, para o exercício do raciocínio para compreender questões simples como a importância de ouvir autoridades científicas e sanitárias durante uma pandemia. 

Não há exercício de qualquer raciocínio lógico na crença de que uma emissora de TV está causando alarmismo e sensacionalismo com relação a pandemia, quando é possível, facilmente, através da internet, constatar as consequências que o coronavírus vem causando no mundo todo (o espaço do não pensar é o escritório do negacionismo). 

O não pensar é preenchido desta forma também para que não haja espaço para escuta, quem já tentou trocar uma ideia com pessoas que optam por não pensar percebem que o diálogo é ineficaz, não porquê ela jamais vá concordar, mas porquê não há espaço para a escuta, até porquê a escuta e a reflexão podem abalar verdades “inabaláveis”. 

Por isso o debate nestes casos acaba sendo uma constante repetição de conceitos simplórios, até porquê no espaço do não pensar, não se é possível perquirir questões mais complexas, é preciso fazer simplificações rasas, ancoradas normalmente no preconceito social para conseguir defender seus pontos de vista (o argumento já vem embalado à vácuo). 

Talvez seja interessante dissertar um pouco mais sobre o ato de não pensar, visto que o espaço onde vigora o não pensar é um campo fértil para a proliferação de notícias falsas. 

Estas fakes são em sua maioria respostas rápidas e rasas sobre anseios preconceituosos das pessoas que terminam por negar a realidade, por desconhecer os fatos e propagar mentiras que confortam as verdades absolutas. 

Desta forma, as pessoas compartilham a estória fantasiosos de que uma vereadora assumidamente lésbica e casada com uma mulher, tivesse um relacionamento com um traficante. 

Se por um lado a criação da notícia falsa tem claros objetivos políticos de atingir a imagem da vereadora assassinada. Por outro lado, temos a aderência em massa “não pensante” a disseminação da fake que decorre desse eco que surge do preconceito, insistentemente repetido, de que defender direitos humanos é defender bandido. 

Vale a pena lembrar que esta fakenews foi compartilhada por uma desembargadora, o que suscita outras reflexões, mas de início esta questão nos levar a constatar que a adesão a notícia falsa não depende de uma ignorância por falta de acesso a recursos, mas de reforço das crenças preconceituosas anteriores. 

Neste sentido, a disseminação das fakenews não decorrem de um suposto potencial informativo da notícia falsa, mas sim da confirmação das crenças anteriores, na maior parte das vezes calcado em retóricas preconceituosas. 

Outra questão importante a ser refletida é que essa desembargadora não é uma mente solitária adepta do não pensar no âmbito do judiciário. 

Veja que o espaço do não pensar é preenchido por crenças, em sua maioria absolutistas e obscurantistas, que não deixam espaço para a escuta. Eis então uma questão de suma importância, como confiar na decisão de pessoas que não exercem a escuta? 

É assim que começo a entender as decisões de uma mesma turma do tribunal que me surpreendeu duas vezes ao decidir de forma contrária ao laudo pericial, com fundamentações rasteiras, que se apegam a qualquer fato divergente do laudo, usando a retórica para fermentar a robustez do suposto elemento de prova que derrega as conclusões médicas que decorrem de um exame do paciente e do seu histórico médico. Assim torna-se possível entender decisões que presumem provas que não foram produzidas nos autos. 

Pensou numa pessoa com camiseta verdade e amarela da seleção, né?!

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Rita, perdoa o preconceito estilístico


Depois de ver algumas postagens nas redes sociais falando da música da Rita, a da facada, criticando a sua “pobreza” poética e musical, fiquei refletindo o quanto o nosso conceito estético, com relação a obra artística que criticamos, pode refletir um preconceito.

 

Confesso que durante muito tempo em minha vida tive uma visão depreciativa sobre estas canções populares, julgava este tipo de trabalho por meio de uma suposta “pobreza poética”, me indagava como pode algo tão simplório ter esse êxito, esbravejando que no Brasil qualquer porcaria faz sucesso, e por aí vai.

 

Com o tempo fui percebendo que minha crítica era elitista, entender que uma música precise ter uma elaboração apurada, fazer uso das mais requintadas técnicas literárias é algo que serve para massagear o ego e tentar justificar um preconceito musical.

 

Embora não encontre qualquer afinidade literária com os versos da letra de Rita, me livrar do preconceito me ajudou a apreciar, mesmo aquelas obras que num primeiro momento eu julgava inaudíveis. E vamos combinar que esta música está se comunicando com o seu público, simples.

 

Nem todos vão se identificar com o belíssimo amor de Ulisses e Penélope, agora o verso “volta que eu perdoo a facada” tenho certeza que fez alguns amigos lembrarem um amor que deixou marcas.

 

Eu aprecio uma música clássica no piano ou com orquestra. Porém hoje entendo que não vou macular meus ouvidos virgens se ouvir uma música daquelas que toca em zona que a puta cheira a amor gaúcho e acerta o preço contigo fumando um derby do maço vermelho.

 

A técnica pode ser a maquiagem da mediocridade. Somos constantemente colonizados pelo nosso estilo, pela nossa escola musical; passamos a colocar uma cerca para delimitar o que no nosso entendimento é bom. Chavões como “existe música boa e ruim” criam este cercamento, esse rótulo para o que não alcança um determinado padrão estético que estabelecemos.

 

Promovemos uma espécie de vestibular artístico para saber se a obra vai ser aprovada pelos nossos critérios. Fazemos o imposto de renda das palavras para saber acerca da riqueza das rimas. Julgamos a obra e o público, como se eles tivessem culpa de se comunicarem, de se entenderem e de não nos entenderem.

 

Somos tomados de soberba porque a leitura e a técnica nos armaram, nos sentimos com o porte de poesia. E as vezes temos um verso muito bem escrito e admirado, porém, apenas por outros poetas.

 

Tem algum tempo que digo que a crítica não deve ser direcionada ao trabalho do artista, apontando o dedo pra determinar o que é ruim, mas sim para os veículos de comunicação que se corromperam com a prática do jabá e muitas vezes transformam uma música num sucesso instantâneo que somos obrigados a conhecer.

 

A perversão do sistema que leva concessões públicas a se dobrarem ao poder financeiro é que deve ser objeto de crítica e não a obra. Mais importante que criticar a obra, penso, é querer garantir que quem curte a facada da Rita, possa ter acesso ao verso perfeito do amor de Penélope e Ulisses, que num primeiro momento vai parecer um romance sem muita emoção.

 

Não devemos pensar em colonizar o mundo com nosso apuro técnico, mas tentar garantir que possam conhecer o que fazemos. Temos liberdade artística, mas preferimos permanecer trancados nos nossos rótulos estéticos e estilísticos.

 

Esse preconceito acaba criando uma falsa crença de que o que apreciamos está num degrau intelectual mais alto, cria-se a ideia de que a arte que faço e consumo não é para todos, porque ela é muito genuína, autêntica, elaborada e blábláblá. Em síntese, “nego bom não se mistura” DOS PAMPAS, Crioulo (campeiro erudito deve se isso).

 

Enfim, as bases de quem critica a Rita são as mesmas do conceito do “campeiro erudito de outros tempos” que um Platão pampeano tentou definir ao criticar os mais de 60 mil expectadores da live do Baitaca, numa tentativa filosófica de tirar o povo “do fundo da grota”.

 

Nesta oportunidade, não faltou quem criticasse o preconceito manifestado, defendendo os aspectos populares da obra do cantor missioneiro. Não podemos agora ser hipócritas de achar que o Baitaca é o Fernando Pessoa comparado a música da Rita.

sábado, 5 de dezembro de 2020

OS PUNHAIS DA TUA AUSÊNCIA



O meu corpo já hospeda
os punhais da tua ausência,

com o terço das distâncias
cumpro minha penitência.

Nas adagas da demora
o gume cego da espera

transpassa dentro do peito,
onde mais me dilacera.

Nos punhais da tua ausência
toda lembrança agoniza

e deixa em mim estas chagas
que o tempo não cicatriza.

Suturo o peito ferido
com as linhas dessa história,

pois se a distância nos fere
tudo que resta é a memória.

Os punhais da tua ausência
se alimentam do meu sangue

com suas lâminas alojadas
em meu peito já exangue.

Sobrevivo aos punhais
dessa ausência carcereira

-Prisioneiro dessa dor
que pensei ser passageira...

Antonio Guadalupe
@oantonioguadalupe

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

O processo criativo da canção e os vilões da criatividade

Fiz uma oficina sobre o processo criativo da canção, ministrada por dois ícones da música regional gaúcha, Luiz Carlos Borges e Vinícius Brum. Batizada de Roda de Prosa, a oficina se desenvolveu em três encontros, com trocas de experiência e muitas histórias sobre canções. 

Uma das propostas para os encontros era a criação de uma canção coletiva composta pelos participantes com a supervisão dos ministrantes da oficina. Após uma semana do primeiro encontro, acabei sendo o primeiro a arriscar alguns versos, o que me rendeu a braçadeira de capitão no time da letra da canção. 

Depois de esboçar uma letra e achar que o trabalho coletivo estava sendo muito solitário, resolvi distribuir o jogo, chamar os outros colegas a participarem da letra. Escrevi outros versos, joguei no grupo do whats e chamei os colegas a contribuírem com versos, estrofes ou simplesmente com ideias. 

Poucos colegas se animaram a contribuir com o trabalho, mesmo assim, reuni as poucas e parcas contribuições feitas e escrevi outra letra. O Vinícius sugeriu que todos tentassem modificar a metrificação da letra, o que não foi atendido por ninguém. 

Foi aí que eu percebi que o trabalho seria realmente solitário, então na quinta-feira antes do último encontro da oficina peguei outra ideia e escrevi outra letra, que acabou sendo elogiado pelo Vinícius Brum e pelo Luiz Carlos Borges no momento que postei no grupo. 

Confesso que fui para o último encontro envaidecido pelos elogios que recebi à letra que escrevi, o que foi perturbado no momento em que, na reunião virtual da oficina, uma das participantes sugeriu mudanças na letra que escrevi porque ela achava que dizer “os versos cortam os pulsos” não ornava com o lirismo do poema. 

Confesso que daí por diante o ranço se instaurou no meu meigo coração, até porque já não era o primeiro comentário desnecessário que fazia ao que vinha sendo desenvolvido. Quando havia uma letra para ser construída coletivamente não deu nenhuma contribuição, agora queria mudar o que escrevi. 

Fiquei indignado com a soberba da pessoa que leu o que escrevi no máximo duas vezes e acredita que pode mudar, com base apenas no achismo, a letra que passei quatro horas escrevendo. O Borges me chamou para dizer o que achava da sugestão e confesso que o pouco que consegui dizer foi que uma mudança na estrofe afetaria o sentido poético da letra. 

Não consegui dizer muito mais, porquê além de estar irritado com a situação, havia um abismo de compreensão dos sentidos interpretativos do que estava escrito (quatro horas de leitura e escrita, contra no máximo duas leituras do texto). Era como tentar explicar controle de constitucionalidade pra uma criança fazendo birra. 

Pra minha alegria, o Vinícius Brum fez uma defesa poética, bem fundamentada, da letra que escrevi, me senti honrado pelas palavras. E no fim prevaleceu o que eu havia escrito, como devia ser. 

Estou contanto essa história porquê tenho lido sobre bloqueios criativos e uma das coisas que aprendi com estas leituras é que este tipo de pessoa costuma ser um dos vilões da criatividade artística. São pessoas que não escrevem, não estudam, mas julgam que com apena uma leitura podem modificar o trabalho artístico alheio. 

É como se depois de se trabalhar no projeto, na fundação, nas estruturas e na construção da casa, a pessoa aparece do nada e pede pra mudar as janelas, simplesmente porque acha que não ornou com o restante da obra. 

São carrapatos da criatividade alheia que parasitam sobre o trabalho artístico dos outros. São daquele tipo de pessoa que aparecem no dia da entrega e pedem pra pôr o seu nome no trabalho que não ajudaram a fazer. 

Com conceitos medíocres sobre arte, acham que escrever é jogar o que sentem no papel, acreditando que quem lê deve sentir o mesmo por causa disso. Escrever o que se sente serve como um escudo pra blindar a falta de capacidade criativa. 

Porém, quando se trata de processo criativo não estamos falando de sentimentos, mas de técnica. Uma letra não fará quem lê sentir raiva, tristeza ou revolta, porque o escritor jogou isso no papel, mas sim porquê foram usadas as ferramentas da linguagem adequadas para despertarem estes sentidos em quem lê/ouve a obra de arte. 

Agora voltando para a letra escrita por mim, preciso confessar que não escrevi nada do que penso ou sinto sobre o tema, bem pelo contrário. Para o meu gosto poético a letra é bem comum, a única estrofe que gosto de verdade e acho bem escrita é segunda, exatamente a que sugeriram mudar. 

Essa é a única estrofe de toda a letra escrita com uma densidade interpretativa mais profunda, onde busco dizer algo que não está escrito. Ela está escrita para gerar essa quebra na ideia de que criar é um ato divino contido na primeira estrofe. 

Essa imagem mais impactante que causa desconforto em alguns leitores não está escrita de forma aleatória, ela é fruto de uma escolha pautada pela técnica. Eu poderia escolher outra imagem, outras palavras e outras rimas, porém, nenhuma delas causaria esse impacto que eu queria causar. 

Furtar-se dos comentários dos prepotentes que se julgam artistas e querem a todo custo modificar aquilo que não entendem na obra dos outros é um desafio para blindar a nossa criatividade de ser sacrificada pelos vilões da criatividade. 

Eis a letra escrita sobre o tema "Missão, vocação e festa" proposto pelo Vinícius Brum no primeiro encontro e o vídeo do último encontro, onde ela foi musicada: 

Missão é um sopro divino
que acende em cada destino
As brasas da inspiração
Acende um dom musiqueiro
Que o coração cancioneiro
Vai transformar em canção.

Na rapidez dos impulsos
Os versos cortam seus pulsos
Pra sangrar nas entrelinhas
Na lucidez dos compêndios
Acendem outros incêndios
Pra queimar ervas daninhas.

Na vocação das guitarras
Que plangem prantos e farras
Nenhum encanto se quebra
As brasas jazem dormidas
Pra costurar as feridas
Que o cancioneiro celebra.

No desatino dos dramas
Acordes queimam nas chamas
Os pensamentos ranzinzas
Inspirações passageiras
Acordam velhas fogueiras
Adormecidas nas cinzas.

Missão é um sopro divino
que acende em cada destino
As brasas da inspiração
Não há razão que a detenha
Que o cancioneiro tem lenha
Pra incandescer a canção.



terça-feira, 17 de novembro de 2020

POR TRÁS DA FACE DOS HOMENS


POR TRÁS DA FACE DOS HOMENS

Letra: Martim César Gonçalves 
Música: Antonio Guadalupe 
Intérprete: Pirisca Greco 
Banda: Paulinho Goulart - acordeon, Rafa Bisogno - leguero, Duca Duarte - baixo e Pirisca - guitarra. 

Por trás das faces do mundo 
dormem histórias veladas 
há rios correndo profundos 
sob águas represadas 
verdades que, lá no fundo, 
são mentiras disfarçadas.

Por trás da face dos homens
há tanta face escondida
impérios e sobrenomes
ceifando sonhos e vidas
os pratos vazios da fome
sobrando em mesas floridas.

Como enxergar a verdade
 por trás das faces maquiadas
 num tempo em que a realidade
é a que nos chega inventada?

Por trás de tanta embalagem
como avaliar o conteúdo
as imagens valendo tudo
as vidas valendo nada?

Por trás de mil aparências
somente um rosto real
sob a máscara da inocência
o mal é somente o mal
e o homem mostra, na essência,
o que ele é, afinal.

A minha primeira piada na escola

Eu lembro uma vez na quinta série, a turma estava numa algazarra e a professora falou:

-Estou esperando o silêncio.

Com meu jeito displicente e atrevido falei:

-Esse aluno não vem hoje, professora.

A turma toda caiu na gargalhada e a professora me mandou ir contar essa piada pra diretora.

E essa foi a primeira vez que eu contei uma piada na escola, na hora pensei: "Sou um sucesso, olha só, pediram bis!"

sábado, 14 de novembro de 2020

Pelos porões da loucura

Eu passei alguns anos sem escrever um poema por completo. Escrevia sempre algumas poucas quadras, que ficavam sempre embrionárias, em sucessivos arquivos de Word pelos meus computadores.

Eu vivia em busca do verso perfeito. E nessa busca, muitas ideias nem chegavam a tocar o papel. Aí eu li esse livro que retrata os horrores que aconteciam em manicômio em Barbacena MG.

Não sei ao certo o que aconteceu durante a leitura, mas passei alguns dias inquieto e comecei a escrever em versos as imagens que o livro remetia.

Algum tempo depois esse poema  participou do prêmio Carlos Drummond de Andrade de poesia, realizado pelo SESC-DF. Não ganhei nada, mas também já tava acostumado que os festivais nativista pra mim foram uma escola nesse quesito.

PELOS PORÕES DA LOUCURA
Pelos porões da loucura
ficam corpos desvalidos
que o descaso abandonou
na casa dos esquecidos...

A loucura mostra o rosto
que esconde nos bastidores
enquanto loucos rastejam 
por imundos corredores.

Pelos porões da loucura
vagam dementes exaustos
que revelam sua nudez
com imagens do holocausto.

Loucos finando de fome
jogados no esquecimento
que por vezes se alimentam
do seu próprio excremento.

Pelos porões da loucura
a morte é coisa normal
e o tratamento de choque
que não lembra um hospital.

Condenados a morrer
de um jeito tão desumano
quem vê de fora pergunta:
-”Afinal, quem são os insanos?”

Pelos porões da loucura
a lucidez range os dentes
fazendo as contas da morte
com sua lógica excludente.

E no comércio dos corpos
se lambuzando em sadismo
a loucura esconde o rosto
por detrás de um eufemismo.

@oantonioguadalupe


(Postagem do poema no Instagram do Canal Conta Comigo)

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Manual de como se divertir com néscios

 Estes dias fiz uma coisa que eu via amigos nas redes sociais fazendo e achava ridículo,  mesmo assim, fui lá e fiz: "dialoguei" com um eleitor do Bozo.

Não recomendo, se está se sentindo solitário conversa com a Siri do iphone, tenta conversar com a mulher do google, porque nestes casos  pelo menos tu tem o socorro da inteligência artificial. 

Eles deviam ser processados pelos robôs por causa daquele vídeo "eu sou robô do Bolsoasno", porque se uma batedeira falasse teria capacidade de dizer algo mais do que "e o PT?"

E foi em cima desse mote que um colega desafiou uma dessas pessoas que adoram vomitar "e o PT?" nas postagens dos outros, a defender seu ponto de vista sem esse argumento, seguido do silêncio retumbante. Fiz uma piada que se mostrou oportuna para o momento.


Quem não gostou da piada foi a pessoa legítima proprietária destes neurônios semi-novos, único dono, muito pouco uso e com tanto espaço interno que vão inaugurar uma loja Havan, com estátua da liberdade e tudo.


Confesso que a resposta não me ofendeu, estudei em universidade federal, alguns neurônios certamente eu flambei neste processo, mas fiquei pensando "será que isso não pode ser divertido?!". Então vesti o meu melhor deboche e comecei citando Mario Quintana, pra dar o tom da minha "fala".

Aí eu mencionei a pessoa e fiz uma piada, que contextualizou muito bem com o trabalho árduo que os neurônios dela fizeram ao me responder, como se pode ver. Isso é trabalho de neurônios que trabalham duro, ou tu acha que esse trabalho de cópia e cola de meme é fácil. Isso exige um trabalho hercúleo que estes neurônios conseguiram realizar em alguns minutos. Incrível.

Mas eu acredito que algumas vezes as pessoas não são burras, apenas os seus neurônios precisam de um coach para mudar o seu mindset. Fazer os neurônios pensarem "eu sou minha própria sinapse" e alavancar a carreira desses neurônios. Aí eu provoquei esses neurônios pra pra darem o melhor de si, no tudo ou nada.


Tutorial de como fugir de um debate sem levar uma facada: Finja superioridade e ocupação, que aí você sai com o rabo entre as pernas, mas se sentindo vitorioso e bem sucedido. Como eu percebi que caçoar da inteligência não estava funcionando, provoquei pelo ídolo... e batata.

Eu me senti lisonjeado de ser chamado de jumento por esta incrível pesquisadora da universidade  de whatsapp, com pós-doutorado em Facebook, com ênfase em memes, que esse negócio de textão os neurônios não conseguem acompanhar muito bem. 

Figuras de linguagem então, é uma agonia. É neurônio gritando "a gente tem que fazer muita sinapse pra entender isso aqui, são dois parágrafos. Tem noção de quantas sinapses precisam pra ler dois parágrafo?". Outro neurônio respondendo "fala da cloroquina, como é aquela frase: não tem prova que tem e não tem prova que não tem".

Diante desse cenário pensei: "acho que uma piada de 5ª série vai entender, ironia já desisti...". Mas veja bem que não foi simplesmente piada de 5ª série pura, que se fosse só de 5ª série, eu responderia algo do tipo: "Jumento, tu chupa meu pau e eu aguento".

Porém, eu optei por uma piada 5ª série, porém maquiada com uma ironia pra parecer de segundo grau. 

A piada de 5ª série pura a pessoa fica braba contigo e recomeça o ciclo, já a piada de quinta maquiada é como dar um biscoito pra um cachorro. Quando ela conseguir decifrar e entender a piada, ela vai ficar feliz.

Claro que o cachorro volta pra tentar ganhar mais um biscoito, mas faz sempre os mesmo truques. Então a gente segue nosso caminho, que o comediante sempre tenta sair no aplauso.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Biografia poética...

Não sei ao certo quando comecei a brincar com as palavras e as rimas, acho que desde que minha mãe, num longínquo dia da minha infância na década de 80 me ensinou o versinho "o amor é uma flor roxa, que nasce no coração dos trouxas", fiquei fascinado por este terreno da palavra onde habita a graça e também a poesia. 

Lembro que repetia várias vezes o verso, buscando entender os sentidos que cada palavra me oferecia, afinal de contas, se o amor é bom, por quê só florescia no coração dos trouxas?! E assim eu ia tentando desvendar o paradoxo existente no verso, embora paradoxo ainda não fosse uma palavra do meu vocabulário de criança. 

Fui me arriscar a brincar com as rimas pela primeira vez lá pelos meus doze ou treze anos, uma letra debochada que escrevi num estilo Mamonas Assassinas, toda rimada com palavras do tipo dormência e sofrência. Assim, na última página de um caderno da 6ª ou da 7ª série, foram registrados os meus primeiros rabiscos poéticos. 


Admiro a ousadia que tive, no auge dos meus doze ou treze anos, em minha primeira incursão pelos campos da poética, escrever uma letra toda com a mesma rima. É trabalhoso reunir tantas palavras que apesar de terem sonoridades tão semelhantes, guardam sentidos semânticos tão diversos. 

Ao catorze comecei a fazer aulas de violão, meu professor integrava um grupo musical que estava no processo de pré-produção de um cd, estavam definindo o repertório do disco, procurando e compondo músicas. Foi quando decidi escrever quatro letras e mostrar para meu professor, movido basicamente pela vaidade de imaginar o meu nome registrado como autor de uma música em um cd. Acabou que ninguém deu importância para aqueles versos de ocasião, nem eu. 

Porém, numa noite de insônia despejei todas as inquietudes que me incomodavam, através de uma linguagem regional, no papel, e assim nasceu “Milonga na madrugada”. Meu professor de violão leu aqueles versos, muito mal escritos, e decidiu musicá-los pra gravar. Algumas semanas depois, eu sairia de um estúdio, no bairro Simões Lopes, com a minha primeira música gravada. 

Nesta época minhas referências musicais estavam mudando, trocava o Charlie Brown Jr e o Gabriel, o Pensador por Luiz Marenco e Gujo Teixeira. Neste período comecei o processo que eu chamo de vestir o meu eu lírico de bota e bombacha, pra fazer ele pegar o laço e arrebanhar as palavras pra leva-las ao brete do nativismo. 

Escrevi mais uma ou duas letras que meu professor musicou e gravamos. Fiz ainda uma gravação simplesmente horrível, onde gravei violões desencontrados e cantei numa afinação alienígena. Menos mal que a letra e a música eram minhas, não estraguei o trabalho de ninguém, só minha dignidade mesmo. 

Só pra constar, ainda tenho estas músicas registradas num cd. Durante muito tempo eu escondi estas gravações, até hoje só eu e um amigo ouvimos pra debochar dessa fase vergonhosa da minha vida poética. E só deixei ele ouvir porque gravamos um programa Flavio Clasen juntos, enfim, não tinha como eu me sentir mais envergonhado diante dele depois disso. 

Mas voltando aos meus quinze ou dezesseis anos, eu escrevi mais um punhado de letras, porém nada foi gravado. Uma frase do Caio Fernando Abreu me fez perceber que escrever é colocar o dedo na garganta, e as ideias do Michel Melamed sobre Regurgitofagia, me fizeram entender que eu precisava me alimentar para ter o que colocar pra fora na hora do dedo na garganta. 

Tinha início, então, a fase da fome, precisava alimentar o meu eu lírico através da leitura. Começava a nutrir minhas ideias com Gujo Teixeira, Jayme Caetano Braun, Mario Quintana, Luiz Sérgio Metz, Mauro Marques, Jorge Luis Borges, Kafka, Rodrigo Bauer, Cecília Meireles, Jaime Vaz Brasil, Sócrates, Platão, Aristóteles. Até mais ou menos meus vinte anos, este era basicamente o cardápio da minha biblioteca. 

Neste período, fiz uma oficina de poesia com um cara que tinha o tamanho de uma criança e o conhecimento de um sábio. Nos tornamos muito amigos, ajudei ele numa pesquisa sobre músicas que faziam referência a obra de Simões Lopes, em retribuição ele fez uma citação no livro sobre uma música minha que se baseava na obra do Simões e estava inédita... Porque eu não tinha feito a música (e não fiz ainda) 

Pouco tempo atrás soube da sua morte e sonhei com ele nesta noite: a gente se encontrava na Praça Coronel Pedro Osório, ele vinha em minha direção e dizia “Ô, sem vergonha, quando é que tu vai fazer a música que tu disse?! Tô passando por mentiroso na frente do Simões” apontando pra estátua do próprio Simões na praça. 

Fiz ainda outra oficina de criação literária, onde passei mais de um ano lendo e discutindo clássicos da literatura e aprendendo técnicas de escrita de contos, crônicas e romance. Agora vai parecer mentira, mas advinha quem ministrava a oficina?! Uma descendente do próprio Simões Lopes. Parece causo do Romualdo, até porque a maior parte da turma era de senhoras já bem velhinhas e hoje quase vinte anos depois a maior parte já deve ter morrido. E quem tá vivo certamente não deve lembrar de muita coisa. 

A oficina me estimulou a ler diversos clássicos da literatura, de Machado de Assis a Shakespeare, de Jorge Amado a Saramago. Eu vivia situações muito engraçadas na oficina, já que a turma era composta em sua maioria por senhoras com mais de 60 anos, além delas duas mulheres na casa dos 40 e uma guria que regulava de idade comigo e cursava jornalismo. Só havia outro homem na turma, um estudante de letras que aparentava ter cerca de 40 anos. 

Confesso que escrevi muito pouco durante a oficina, tanto que acabei não fazendo parte do livro que foi feito com os textos da turma ao final. Pra ser bem sincero, diversas vezes eu acabava escrevendo textos cômicos, que eu não dava muito valor na época. A lembrança mais inusitada dessa época é eu, tomando clericot com as senhoras da turma num apartamento na Praça Cel. Pedro Osório. Quem diria, da canha com butiá para o clericot. 

Depois veio a faculdade de direito, período que a poesia ficou encubada em mim. Nesta época me dediquei a compor melodias, dando, assim, asas aos versos de outros poetas. Ainda escrevia alguns versos, que na maior parte das vezes eu acabava não dando continuidade. 

Agora durante a pandemia comecei a visitar meus arquivos e papeis guardados, encontrando diversos rascunhos de poemas inacabados, e ideias que não desenvolvi ao longo deste tempo. Ao encontrar dois versos rascunhados numa folha perdida entre os meus guardados, pensei: “Por que não terminar este e outros poemas que deixei perdidos no tempo?”

Foi assim que eu decidi escrever um livro de poesia, que pretendo escrever até o fim do ano que vem e lançar nem que seja em ebook. Quero criar inclusive um grupo de convidados que tenham interesse de acompanhar o processo de construção do livro, que terão acesso exclusivo a poemas escritos e declamados. 

Se tiver interesse de embarcar nesta viagem, curte e comenta essa publicação e fica ligado que vou abrir uma caixa de comentários nos stories para quem quiser acompanhar o processo de construção do livro, praticamente, poema a poema.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Sapatos velhos



Ao sentir aquele desconforto em meus pés, pude então compreender, olhando para a sua fisionamia cansada, que era chegada a hora derradeira: meus sapatos estavam entrando com o pedido de aposentadoria.

E olhando para seu aspecto desgastado, podia ver claramente que se tratava de um pedido de aposentadoria por invalidez. Acaba sendo o destino de todos, nenhum calçado em minha vida teve oportunidade de se aposentar por tempo de serviço.

No entanto, antes que eu possa finalmente relegar a este par o merecido descanso, preciso de sapatos novos, o que se mostra uma tarefa árdua, visto que pelo massacre que meus sapatos sofreram, certamente, não darão boas referências do dono para o próximo par a ser adquirido.

Apesar de não ter boas referências do dono, não tenho dúvida que meus sapatos terão boas histórias para contar, mais ou menos assim:

“Não lamento o meu destino de sapato humilde. Sei que do couro que me fizeram, podia ser um Ferracini, um Gucci, mas quis o destino que eu fosse um pegada em promoção na Renner.

Mas de verdade, não lamento o meu destino, pelo contrário. Enquanto um Ferracini estaria por aí, pisando em algum tapete vermelho, eu estava nos pés de um pai, despreocupado com as instruções de uso e conservação do couro, jogando bola com o filho no pátio.

Posso não ter ido a eventos grandiosos, mas quando que um Gucci vai poder dizer que fez um gol de voleio?!

Outra experiência que tive que estes sapatos de grã-fino iam se apavorar, andei no barro, conheci os dias de chuva, fui brinquedo nas mãos de um criança, calçando a ilusão de um menino que queria ser grande.”

Olho admirado para os meus sapatos, lembrando os tantos caminhos e penso: devido a crise, vai incidir a reforma da previdência, tem mais três meses de contribuição antes de se aposentar.

@oantonioguadalupe

sábado, 2 de maio de 2020

PROVA DE RECUPERAÇÃO


Cinquenta dias de quarentena, Márcia percebe um comportamento estranho de Augusto que parece inquieto, como se estivesse escondendo algo, mas acha melhor não falar nada para evitar uma briga desnecessária pra evitar um climão durante o período de isolamento social. Após passar uma hora e meia com ambos em silêncio na frente da TV que passava um programa dominical, até que Augusto irrompe:
-Márcia, preciso te falar uma coisa!
-Ai ai, que foi, Gugu?! Não vai me dizer que tá com coronavírus?
-Não é nada disso. Preciso te contar uma coisa, não posso mais guardar isso.
-Não vai me dizer que tu tem uma amante e resolveu me contar justo agora na quarentena. Ah! Que se tu tiver uma amante te faço passar o resto da quarentena na casa da tua mãe!
-Mas minha mãe já morreu, Márcia?!
-Então tu entendeu o meu recado!
-Não é nada disso, não tem nada de amante.
-Achei mesmo, se chovesse xereca tu ia andar de galocha e guarda-chuva.
-O que você disse?
-Que se chover, tu é um homem prevenido.
-Ah! Bom... Mas o que eu quero contar é um segredo que eu escondo de vocês desde o início do nosso relacionamento.
-Tu escolheu a pandemia pra sair do armário, Gugu?! Eu achando que a gente não tá transando em todos os cantos da casa por causa do estresse da quarentena.
-Não é nada disso, Márcia.
-Não tá me comendo por quê, então?
-Isso é a quarentena.
-Quarentena mesmo, Augusto! Já são 40 dias... e contando.
-Eu não ando com cabeça pra isso mulher.
-Estranho, porque tem tomado uns banhos bem demorados.
-O que você quer dizer?
-Tô dizendo que tu é um homem limpo. Mas fala de uma vez qual é esse segredo que tu esconde desde o início do nosso relacionamento. Já tô desconfiando que tu queria me levar pro programa “Casos de família” pra contar isso, mas a pandemia estragou teus planos.
-Márcia, eu não aguento mais fingir ser alguém que na verdade eu não sou!!
-Como assim fingir ser alguém que tu não é? Só falta aparecer agora o Scooby Doo e sua turma pra tirar uma máscara pra revelar que na verdade é um eunuco.
-Chega!! Eu quero dizer que eu não consigo furar a parede para colocar os quadros.
-Como assim?!
-Também não sei trocar resistência do chuveiro, a mangueira do gás ou consertar a torneira da pia. Enfim, não sei fazer nenhum dessas coisas de “homem”.
-Mas como se tu já fez todas essas coisas aqui em casa?
-Não fui eu que fiz, eu contratava um marido de aluguel pra fazer todas essas coisas por mim. Por isso eu só “fazia os reparos” quando você não estava em casa e usava como desculpa que não queria te incomodar.
-Ainnn, eu achava isso tão fofo. E as fotos, são montagens?
-Não são montagem, apenas fingimento. Eu pagava um extra e o marido de aluguel tirava a foto pra mim e ainda emprestava as ferramentas pra foto.
-Como assim emprestava as ferramentas, tem uma caixa de ferramentas na garagem Augusto?
-A caixa de ferramentas está vazia, eu nunca tive uma mísera chave de fenda. É que eu sou hétero, mas nunca gostei dessas coisas de hétero machão, tipo carro importado e moto cara. Eu sou o tipo de cara que gosta de arte e música clássica, mas isso nunca me ajudou com as mulheres
-Pode isso, Arnaldo, digo, Augusto?! Periga não entender a referência.
-Entendi, Márcia. Mas é isso, se ser homem padrão fosse um curso eu ia passar em exame.
-Tu fez supletivo pra homem e só passou no teste porque chupava uma xereca muito bem.
-O que, Márcia?
-Ai, saudade de quando tu era um aluno aplicado. Mas porquê que resolveu contar esse segredo justo na pandemia?
-É que já estamos em quarentena a não sei quanto tempo e fazem 40 dias que você me cobra pra consertar o ventilador de teto do nosso quarto e não posso chamar o marido de aluguel pra fazer o reparo por causa do isolamento social.Isso já tá me deixando louco.
-Está tudo bem Gugu, meu amor. Não precisa sofrer por causa disso, depois que tudo passar a gente chama o marido de aluguel pra resolver isso então. O importante é ficar bem neste período de quarentena. Tu tá bem agora?
-Sim, me sinto melhor agora que contei isso. Saiu um peso de mim.
-Tá bem então?! Que tal uma prova de recuperação pra não perder o ano?!


Uma hora e meia depois Márcia repousa ao lado de Augusto que está deitado de bruços, enquanto ela fumava um cigarro com o olhar fixo na pá quebrada do ventilado de teto.

@oantonioguadalupe

domingo, 5 de abril de 2020

CORONA: O PLANO DIVINO PARA A HUMANIDADE


O cenário desta história é a sala de reunião onde seria decidido o destino da humanidade sobre a terra. Local para uma reunião dessas? ONU, OMS, Washington? Não, o destino da humanidade estava sendo definido no céu.
Na mesa de reunião o alto escalão do paraíso, convocado as pressas por Deus para tratar de um assunto de alta relevância: o reset da raça humana.
Iniciada a reunião, Deus dispensa o power point e começa a falar:
-Agradeço a presença de todos vocês a nossa reunião de emergência. Quero já avisar vocês que tô decidido: vou extinguir a raça humana.
Todos a volta da mesa olham atônitos, enquanto Nosso Senhor prossegue em seu discurso:
-Mas dessa vez quero fazer diferente, porque da última vez eu resetei inundando tudo, foi uma merda, uma a sujeira, a água mistura com a terra e vira lama, fica parecendo o estacionamento da fenadoce. É o que dá ouvir o pessoal da engenharia da Vale.
São Francisco de Assis, tentando amenizar o clima fala:
-E o trabalho que deu pra salvar os animais na arca?
-Nem me fale, São Francisco de Assis! Tinha que ser um vegano pra lembrar dos animais nesta hora. Mas foi um fuzuê pra salvar todos aqueles animais, porque o Noé pegou um chimpanzé na Jamaica (não sei como ele achou, coisa do Noé) que deixou a bicharada maluca, rolou uma suruba que me surpreende a zebra não ter a pelagem igual de um dalmata. Mas pode ficar tranquilo Assis que com esse vírus que eu encomendei agora eu vou acabar só com a raça humana, os animais ficarão ilesos, Assis.
Jesus Cristo incomodado interrompe a fala:
-Mas Pai, me deixaste morrer na cruz pra redenção da humanidade, pra agora abandonar a própria sorte.
-Não, Jesus, eu não vou abandonar a humanidade a própria sorte, eu vou exterminar mesmo, que nem eu fiz com os dinossauros! Seguinte, meu filho, a gente precisa reconhecer quando um projeto dá errado e já estourou o nosso prazo com isso... Dois mil anos... Já tá ficando até ruim pra mim, Odin fica tirando sarro com a minha cara por causa daquele filho dele que tem filme de super-herói. Já eu mando meu filho pra terra e em vez dele fazer que nem o Thor e guerrear, ficava dando palestra, como era o nome?
-Evangelho, pai.
-Pois parecia um estudante de humanas da USP na eleição do DCE com aqueles teus doze amigos. Ficava falando em poesia da montanha, confundia aquele pessoal humilde.
-Não é poesia, é parábola da montanha!
-Pra mim essa conversa de camelo no buraco da agulha é uma metáfora, então é poesia. Até hoje tem gente pedindo dinheiro no meu nome e dizendo que as merdas acontecem por causa da minha vontade por conta desse teu papo cabeça, Jesus.
-Calma! Deus é amor, esqueceu?!
-Sou Deus do Velho Testamento, comigo não tem essa frescuragem de politicamente correto! E já decidi, vou soltar esse vírus e extermino toda a humanidade, ou quase toda a humanidade. Devem sobrar alguns, mas sabe como é, humanos e baratas, impossível exterminar todos.
-E se eu voltasse a terra, pra levar mais uma vez a sua palavra?
-Voltar, Jesus?! Tem olhado os noticiários?! Se tu voltar, com essa conversa, te chamam de comunista e te mandam ir pra Cuba. Jesus, meu filho, ouve o meu conselho: fica em casa!

@oantonioguadalupe


Das travessias intrínsecas

Lembro que eu devia ter por volta de dez anos, estava jogando bola na frente de casa quando ouvi o burburinho de que meu irmão tinha sido at...