O sangue de Hildebrando gelou ao perceber a aproximação de dois homens em uma moto. Antes que pudesse esboçar qualquer reação de fuga, sentiu o cano do revólver contra suas costas.
Resignado, entrega a carteira e o celular pensando em apenas evitar o pior. Demorou a entender quando o bandido que recolhia os pertences lhe indagou do carregador. Perdido, Hildebrando perguntou:
-Que carregador?
-Tá tirando comigo, irmão?! Que carregador tu acha que eu quero? Tô falando do carregador do celular, comédia.
-Não estou com o carregador.
-Tá me tirando? Tu ia aonde maluco?
-Estava indo pro trabalho.
-E ia sem levar o carregador do iphone? Tá fazendo isso pra não tê como pedir uber depois?!
-É que eu saí apressado porque estou atrasado. Quando isso acontece peço emprestado o carregador do Aninha no serviço, que ela tem um modelo igual ao meu.
-Então tá, amizade, sobe na garupa entre eu e o parceiro ali e vamos lá buscar o carregador da Aninha.
-O que?
-Isso que tu escutô, irmão. Vamo lá roubá o carregador da Aninha.
-Por que?
-Porque eu não vô roubá um iphone sem o carregador. Os malandro já tão até vendendo separado porque o bagulho custa uma nota.
-Mas nós três numa moto vai chamar atenção da polícia.
-Tá certo. Mora perto?
-Algumas quadras.
-Então vamo lá buscá.
-O celular não é suficiente? Por que tanta insistência com o carregador?
-Moço, virei ladrão depois que perdi minha mãe. E o senhor sabe, que mãe a gente tem que respeitá. E se tem coisa que minha mãe sempre me disse foi que feio era roubá e não podê carregá.
Habeas Ideas significa ideias soltas. Aqui as palavras são o alvará de soltura por meio da qual algumas ideias buscam liberdade.
sábado, 20 de março de 2021
Pai, sabe o que a tia Juliana tem?
-Pai, sabe o que a tia Juliana tem?
A pergunta simples fez a cabeça de Inácio dar uma longa volta pelos caminhos da lembrança. Não conseguia lembrar qual das professoras da escolinha do filho era a tia Juliana.
Além da curiosidade natural que a pergunta desencadeia, Inácio sentia necessidade de desvendar esse mistério como medida de preservação da sua própria saúde, porque desde que se separou acabou tendo alguns encontros casuais com uma ou outra professora do filho.
Inácio pensava que precisaria fazer um check up completo, com todos os exames possíveis que detectam doenças venéreas. Percebendo a expressão de preocupação do pai, o filho repete a pergunta:
-Pai, sabe o que a tia Juliana tem?
-Não sei não meu filho, tomara que não seja nada grave.
Sem entender a resposta do pai, o menino completa:
-A tia Juliana tem um iphone. Por que tá com essa cara pai?
Após um suspiro de alívio, Inácio responde ao filho:
-Nada não, só tenho que desmarcar uns exames.
quarta-feira, 17 de março de 2021
O MISTÉRIO DO SORRISO DESAPARECIDO
Seu Antenor acordou no meio da noite, o que não costumava acontecer. Com a barriga roncando de fome, a cada rugir de leão nas tripas, esbravejava em pensamento para não acordar ninguém na casa: “Eu disse que sopa não é janta!”
Ainda deitado, resmunga para si mesmo sua insatisfação de ter se sujeitado a morar com o filho e a família após a viuvez, mesmo ainda podendo se cuidar. Se ainda morasse sozinho, podia encomendar um lanche e assistir TV até pegar no sono de novo.
Agora vivendo sob o teto do filho precisava decidir entre dormir com fome ou levantar para fazer um sanduíche, se esforçando para não fazer barulho e acordar alguém. Além dos horários para dormir e acordar, precisava se esconder para pitar um cigarro. É, parece que
o jogo virou.
Embora goste da convivência diária com o neto, com quem se diverte muito, seu Antenor acha que a comida saudável da nora e a conversa chata do filho, advogado de falência, são um preço muito alto para se pagar.
Decidido a não dormir com fome, levanta-se da cama, calça as pantufas e se depara com o copo d’água onde guardava a dentadura vazio. Surpreso põe os dedos na boca para se certificar que estava com as gengivas nuas.
Sem fazer barulho, seu Antenor procura sem sucesso por toda casa sua dentadura, até ter um lampejo ao lembrar da ansiedade do neto para perder o primeiro dente depois de ouvir a estória da fada do dente.
Debaixo do travesseiro do neto encontrou a dentição do seu sorriso, como uma farta oferenda para a fada do dente, que certamente precisaria de um financiamento para quitar esse contrato. Sem moeda no bolso do pijama, seu Antenor escreveu um bilhete e deixou sob o travesseiro.
Apenas o vovó entendeu a graça quando o neto disse que ia precisar da ajuda do pai porquê a fada do dente tinha pedido falência.
terça-feira, 16 de março de 2021
UM DEPUTADO NO NOSSO LAR
Silvio chega atordoado pela falta de ar, depois de dias entubado, seus olhos demoravam a se acostumar com a claridade. Deitado em um tipo de maca, ao ver alguém vestido de branco passar por perto pergunta:
-Enfermeiro, onde eu estou?
-Nosso Lar.
-Como?
-Colônia Espiritual Nosso Lar. Achei que com o filme fosse popularizar isso, mas não, tem que dizer a razão social inteira cada vez que chega alguém aqui.
-Quer dizer que eu morri?
-Não, deputado, a gente aqui aproveitou que vossa excelência estava entubado e trouxe aqui pra fazer uma licitação pra construir uma ala pra receber quem morre de covid. Fazer uma área vip chamada kloroquina, com k pra ter um diferencial.
-É sério isso?
-Óbvio que não, você morreu, como milhares de outros brasileiros, vitimado pelo coronavírus.
-E o tratamento precoce?
Neste momento o espírito vestido de branco encara o deputado e começa a cantar com uma voz fina, parecendo Alvim e os Esquilos, a música que se popularizou nas redes sociais “Oh no oh no no no”.
Silvio indignado esbraveja:
-Você está debochando com a minha cara. Chame o seu superior aqui. Ou melhor, chame o Chico Xavier, que já deve ser presidente por aqui.
-Primeiro que aqui não tem essa de pistolão; segundo que o Chico ficou de espírito guardião responsável pelo Brasil até 2018, depois disso ele pediu o boné e picou a mula. E tem mais, deboche é o senhor deputado, em plena pandemia, a gente tendo que fazer plantão duplo aqui no Nosso Lar pra receber esse monte de gente que vem do Brasil e o senhor criar lei pra desobrigar a vacinação.
Um pouco mais distante dois espíritos superiores observam a cena, enquanto um comenta com o outro “Devemos parabenizar quem teve a ideia de colocar comediantes para receber os políticos e os negacionistas. O trabalho é pesado, mas tem sido bem mais divertido.”
sábado, 13 de março de 2021
Rosa mística, esse nome, sei não...
Minha mãe cursou história na UFPel, já eu fiz direito na FURG. Pontuo essas informações pra justificar o entendimento cômico deste diálogo.
Digo isso, porque quando eu comentei, ainda no começo da faculdade que eu tinha ido tomar uma cerveja com os colegas no Rosa Mística, minha mãe disparou:
-Isso é bar de maconheiro. Isso é bem nome de bar que junta só a marofa.
Não posso negar que alguém que foi estudante de história, supõe-se, tenha expertise no assunto, mas convicto respondi pra minha mãe:
-O nome é sugestivo, mas não é.
-Como que tu sabe?
-Eu procurei, incansavelmente...
Rimos muito, eu apanhei.
quinta-feira, 11 de março de 2021
POR MEUS JOELHOS
Após um ano, voltei a fazer pequenas caminhadas. Meus joelhos exigiam.
No último ano, antes da pandemia, eu sentia o meu joelho esquerdo quando pressionava a embreagem.
Percebi que havia todo um exercício invisível que eu realizava no meu cotidiano. Do carro até o escritório, subir os três lances de escadas até a minha sala no quarto andar.
Descia uma ou duas vezes para ir na fruteira comprar uma salada de frutas; ou numa loja, na esquina da Osório, pegar incenso e uma cartela de trilegal.
Enfim, o que eu queria dizer é que fazia um ano que não caminhava e meus joelhos já estavam demonstrando os sinais da idade ao serem exigidos apenas para os pedais do carro.
Voltei a caminhar... Comecei aos poucos... Antes tinha que vencer o receio que adquiri de sair à rua, após tanto tempo de isolamento social.
Comecei a caminhar dando alguma utilidade para a minha caminhada, ia buscar pão pro café, calabresa para o feijão. Era bom que sempre aproveitava para ir no supermercado onde mediam a temperatura na entrada.
Na vez que minha temperatura era 37,5, aleguei que nesta cidade já havia sido decretado que 37 e meio não é febre. A moça que media a temperatura chorou ao som de uma charanga.
Voltei a caminhar, após um ano. E já percebo a fisionomia da cidade modificada. Muitos estabelecimentos que compunham a paisagem do meu caminho dando lugar a placas de aluga-se amontoadas no rosto das cortinas de ferro.
Não somos mais os mesmos, penso parafraseando Heráclito diante do imponente prédio onde foi a maior vídeo locadora da cidade. Por ironia do destino hoje é uma farmácia.
Preciso de um discman para trocar estes pensamentos aleatórios por música durante as caminhadas...
DIÁLOGOS DE DOIS NEURÔNIOS TRABALHANDO NO PLANTÃO

"-Em que mundo você vive?
-No Brasil"
Saber ler não significa saber interpretar o que está escrito. Eu fico imaginando possíveis diálogos que os neurônios teriam nessa hora:
-Zé, acabaram de perguntar aqui em que mundo a gente vive. Tem aquele acento que parece um anzol é uma pergunta, isso eu sei que explicaram naquele curso que a Simone fez de mobral.
-Ué, responde que é Porto Alegre. Precisa do endereço e do CEP também pra responder? Vão mandar carta.
-Você é um neurônio muito burro, Zé. Não tão perguntando onde a gente vive, mas em que mundo a gente vive
-A gente vive no cérebro. Precisa descrever? Diz que é amplo, parece um depósito vazio, a gente fala e até dá eco aqui dentro.
-Mas você é muito estúpido mesmo, Zé. Não é o mundo que a gente vive, é o mundo que a Simone vive.
-Ah! Por que não falou antes. Essa é fácil: whatsapp.
-Não deixa de ser verdade, mas acho que não é isso que a gente precisa pra agora.
-Cloroquina e ivermectina.
-Também não é isso, Zé.
-Ah cara, faz que nem eleição e sai com um Brasil acima de tudo.
-É isso, Zé. O mundo que ela vive, é essa resposta: Brasil.
-Longe de mim duvidar do seu conhecimento, chefe, mas Brasil não seria o país que ela vive?!
-Já respondi, Zé e sua pergunta é apenas retórica. Aprendi isso naquele curso de sobral.
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