Lembro que eu devia ter por volta de dez anos, estava jogando bola na frente de casa quando ouvi o burburinho de que meu irmão tinha sido atropelado. Entrei em choque e fui até a esquina repetindo a todo instante “meu irmão não, meu irmão não”.
Ao chegar na esquina, meus pais já tinham buscado meu irmão para levar para o hospital. Diante do caminhão, estava a bicicleta destruída que eu recolhi para levar para casa, o tempo todo repetindo “meu irmão não”.
No dia dois de janeiro, quando o João Pedro veio correndo pra mim gritando “pai, eu quebrei” e me mostrou o braço com uma fratura quase exposta depois de cair do skate, eu reencontrei de novo aquele guri assustado que há cerca de trinta anos atrás havia ficado apavorado debaixo da mesa.
No entanto, neste dia eu não podia simplesmente chorar abraçado nas minhas pernas, precisava socorrer um filho com o braço quebrado, ao mesmo tempo que não podia deixar o irmão mais novo dele que estava com a gente se apavorar com a situação.
Estávamos na praça e nós três caminhamos duas quadras e meia, que pareciam intermináveis, para que eu pudesse deixar o Francisco na casa da avó e correr pra Unimed com o João.
Por fora, eu era a pessoa mais forte do mundo conversando para que nenhum dos guris se desesperasse com o que aconteceu; por dentro era aquela mesma criança assustada debaixo da mesa.
Foram mais de quatro horas desde que ele veio até mim apavorado depois da queda até a nossa saída da Unimed, após passar o efeito da anestesia que ele teve que tomar para que os médicos recolocassem o pulso de volta no lugar.
Durante esse tempo, tive que enfrentar sozinho a angústia da espera e escutar do médico sobre a gravidade da lesão que por muito pouco não foi uma fratura exposta.
Neste dia fui dormir depois das seis da manhã, precisava voltar pelos corredores da memória para dar a mão aquele guri assustado debaixo da mesa. Ele precisava do meu abraço e sem dúvida eu precisava mais ainda do abraço dele.
Abraçado a esse guri assustado, vívido nas minhas lembranças, falei em seu ouvido: “jamais sinta vergonha por esse momento de vulnerabilidade, porque isso vai te fazer mais forte e um dia outro guri com medo vai precisar dessa tua força, porque ele só vai poder contar contigo”.
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