sábado, 19 de dezembro de 2020

A história por trás das canções: Pra renascer na garganta


Conheci o poeta Carlos Omar lá pelo ano de 2001, ele estava em Pelotas por ocasião do CIRIO - Canto interuniversitário rio grandense. Já conhecia a obra, conhecia agora o criador. 

Neste primeiro contato eu, um jovem compositor afoito, falava de parceria para ele, que me disse carinhosamente que uma parceria pra ele só podia nascer depois dele tomar um trago com o candidato a parceria.

Seguimos contato por meio virtual e um dia no ano de 2005, de passagem por Pelotas antes de se dirigir para um festival de poesia em São Lourenço do Sul, me convidou para uma prosa regada a cerveja.

Depois de termos saído para buscar mais um fardo de cerveja, voltamos e o Carlos Omar sentou-se diante do computador e me disse: me diz que tema que tu tem travado?!

Eu colecionava uma série de frases metafóricas que eram o mote de uma série de poemas que nunca escrevi. Sem titubear falei: pra renascer na garganta. 

Além desta letra Carlos Omar ainda escreveu mais duas, estando uma delas ainda inédita. Alguns meses depois eu mandava para Santa Maria uma fita k7 com a melodia que eu tinha feito, que recebeu alguns retoques do Tuny Brum que gravou o tema para nós. 

Essa foi minha primeira música classificada em festival, lembro do Omar me ligando de madrugada pra avisar que passamos a música.

E em setembro de 2006 minha primeira música classificada em festival era interpretada pelo Ivo Fraga, que na época nas raras vezes que subia no palco de algum festival era para cantar músicas do Jaime Vaz Brasil e do Ricardo Freire.

Lembro que na final do festival eu estava vendo o Ivo Fraga cantar de forma brilhante e só pensava: se eu tomasse Coca-Cola tu não tava aí cantando.

DE ESPORAS E RUMOS

Pingo de cacho quebrado,
adaga sob os pelegos;
cantam esporas nas pedras
pra avisar quando chego...
Guardo horizontes nos olhos,
distâncias no coração...
Risquei os mapas da pampa
de rédea firme na mão!

Garanto o meu sustento
só com a força do braço
e quando falta serviço,
me viro bem com meu laço!
Fiz fama pelas carreiras
e nas carpetas de truco,
se a sorte não negaceia
eu multiplico meu lucro!

Gastei esporas e rumos
domando estradas e potros;
se fiz cavalos de lei
foi sempre pra o andar dos outros...
Herdei distâncias e penas,
poncho com marcas de bala
e uma garrucha sem nome
que “hace tiempos” não fala!!

Não saco as armas do cinto
pra brigar por ninharia,
nem sujo as mãos com o sangue
da inveja ou da covardia...
Mas quando o baile se encrespa
e o candeeiro se apaga
pra garantir a coragem,
a precisão de uma adaga!

Conheço bem os atalhos
que existem pelo caminho;
às vezes levam às flores
n’outras conduzem a espinhos...
A estrada é feita de rumos,
sempre chegar ou partir;
e eu sigo andando a esmo
como quem foge de si...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

UMA FÁBULA FESTIVALEIRA: O CANÁRIO BELGA E O ANU

Segundo contam na minha terra, alguns anos após Noé atracar com sua jangada nas margens do Rio Mississipi, a bicharada que desembarcou por aquelas bandas resolveu fazer um festival de canções selvagens, como forma de enaltecer os valores que nutriam por encontrar aquela terra abençoada após o dilúvio. 

Com o tempo foram surgindo outros festivais de canções selvagens em outras regiões, cada um incorporando as características locais na sua forma de conceber e fazer a canção selvagem. 

Com o tempo, alguns animais começaram a dizer que a sua canção selvagem era a canção selvagem autêntica, taxando de canções domesticadas todo o canto que se furta do brado selvagem. 

Pois foi depois do tradicional Arizona da Canção Selvagem que um canário belga teceu críticas ao conjunto da obra apresentado, do alto do seu galho falou que quase tudo que havia escutado era a mesmice que ele já escutava desde o tempo do dilúvio. 

Pois não é que um anu, com tempo de sobra, achou que o canário estava falando da obra dele e respondeu cheio de dedos, ou melhor cheio de bicos, levando a crítica para o lado pessoal. 

O canário belga respondeu que crítica não era dirigida a obra do anu, mas sim ao cenário da canção selvagem que canta o romantismo de uma selva que é amada nas canções, porém carbonizada no mundo real. 

O anu ficou furioso com a resposta e se pôs a esbravejar contra o canário belga, disse que música não é ciência, que mesmo ele que nunca estudou arquitetura tinha um ninho de barro, que o canário belga nada entendia de sentimentos e o lugar dele era fora dos palcos, da antes frondosa árvore das canções selvagens. 

E se foi o anu, batendo asas e assoviando “meu biquíni de bolinhas” pelo caminho... 

Atônito com a cena, o canário belga comentou com um joão de barro que trabalhava alguns galhos abaixo: 

-Tempos insólitos estes em que um anu, que não toca nem berimbau, acha que pode definir se o lugar de alguém é ou não no palco. Quando se compõe uma obra, sem se tocar nada, não perde horas estudando escalas, harmonia, praticando, instrumento, assim sobra tempo pra tomar as dores por qualquer crítica. Nem mesmo as críticas que faço são novas, desde a Carta à Mississipi em 81 se fala disso. Lamentável que existam mentalidades que acreditam que podem definir a quem o palco irá servir, que não enxergam o palco como um espaço de todos. Porém, quando se faz mais do mesmo, fica fácil até pra quem não toca nada se destacar. 

Nisso o João de Barro interrompe: 

-Do que tu tá falando, canário? Desculpa, não escutei por causa do barulho das ferramentas, tô terminando uma obra nova pro anu...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

O ENGAJAMENTO DA ESTUPIDEZ


Tenho notado que a estupidez sempre gera ibope nas redes sociais. Os comentários mais estapafúrdios, desprovidos de bom senso, que buscam um pré-sal do ridículo acabam sendo, muitas vezes os mais comentados de uma postagem na rede social.

Tem algum tempo que tenho refletido buscando entender qual é o impulso que leva a esta alta demanda de respostas para os comentários mais imbecis. Inicialmente eu acreditava que fosse algum tipo de impulso que decorresse de uma necessidade de não deixar o absurdo sem resposta, algo como “se a gente não responder isso passa a ser verdade”.

Porém a demanda de respostas costuma ser tão grande que essa teoria me pareceu insuficiente para responder, afinal de contas, se uma pessoa respondeu, está respondido.

Foi então que comecei a entender que o impulso mais forte que atua neste momento é o “olha lá um idiota comentando merda na rede social, vamos lá refutar as idiotices que ele tirou do whatsapp com argumentos.” É um instinto de prevalecimento que vigora nesta hora, a possibilidade de tripudiar de uma pessoa que claramente abandonou qualquer possibilidade dos neurônios fazerem uma sinapse.

É fácil de bater, costuma não entender ironia, o que torna tudo mais engraçado. Pessoas que acreditam que se elas tiverem um canhoto do próprio voto podem evitar ou até mesmo comprovar uma fraude. Convenhamos que não vale a pena desperdiçar pensamento lógico e racionalidade com quem defende essa ideia, tipo, a pessoa acha que se ter um canhoto do próprio evita fraude.

E faz como, chega alegação de fraude no TSE aí os mesários são convocados pra pegar os canhotos tudo de volta pra conferir?! Se a pessoa é tipo eu que não lembra onde guardou o comprovante? Meu voto vai contar como nulo na recontagem?! Esse é o tipo de pessoa que se dizem que tem pau pequeno exige recontagem...

Agora, voltando ao impulso, o grande ponto é este, a excitação intelectual que as pessoas sentem ao poder expor a ignorância do outro, desfiando seus mil e um argumentos cientificados, recheados de dados, dando um verniz de intelectualidade para algo que merece apenas escárnio e deboche. O tiozão fala que a terra é plana e a caixa de comentários vira um seminário da USP.

E o pior é que o astro é o terraplanista, que se sente importante porque teve inúmeras respostas pra imbecilidade que ele escreveu. Pra uma mentalidade formada através de uma lavagem cerebral perpetrada através de fakenews, o volume de respostas acaba tendo um efeito validador.

Na cabeça dele tá pipocando “pra tá toda essa gente me respondendo é porque eu disse algo muito foda”. Isso faz ele se sentir importante, alguém que detém uma grande verdade que querem calar. Então quando maior for o espancamento intelectual, mais as pessoas que batem se sentem satisfeitas de ter um judas para apedrejar.

E do lado desfavorecido intelectualmente, há apenas o reforço das ideias já pré-instaladas, gerando o sentimento de validação porque tem um monte de “esquerdopata” tentando “calar” esse grande portador da verdade suprema que lhe foi enviada por Deus através de um grupo no whatsapp.

Assim perpetua-se um eterno ciclo que longe de estabelecer qualquer diálogo, qualquer crescimento, apenas reforça a polaridade que há tempos está vigendo no país. Não se leva a sério este tipo de pessoa e seus discursos.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

O artifício do não pensar


Há quem suponha que pensar seja algo tão natural quanto respirar. Pelo que temos visto nos últimos tempos, se pensar é como respirar, estamos vendo peixes lutando para viver na terra. 

Biologicamente podemos definir o pensar como uma sinapse, e embora todo ser humano seja capaz de realizar uma, espanta a incapacidade de exercer raciocínios minimamente lógicos e coerentes. 

Assistimos, espantados, a internet jorrando na nossa cara toda hora um mar de seres “não pensantes”, que muitas vezes exercem influência em um rebanho de outros seres que abdicaram da capacidade de pensar. Entregar a tarefa de refletir a outra pessoa parece ser a grande marca da sociedade da adesão. 

As vezes parece que as pessoas que escreviam aqueles absurdos (?) que apareciam nas pérolas do Enem do Programa do Jô tomaram conta das redes sociais. A gente lê cada absurdo que fica se perguntando “como é que pode?!” 

E é algo diferente de ignorância, mas sim um não pensar mesmo, que costuma sempre vir coberto por uma extensa camada de arrogância. Aí está o paradoxo, o dilema de Schroedinger dessa gente, eles tratam o seu não pensar como um saber. Eles são simplesmente investidos do verdadeiro saber, um saber que não foi contaminado pelo marxismo cultural. 

O saber se instala na cabeça destas pessoas como um aplicativo, é instalado no telefone. (O saber é construído aos poucos, antes de caminhar é preciso engatinhar, mas esse povo acredita que pode voar. E se disserem que vão morrer ao pular o prédio, que a lei da gravidade não é só uma leizinha, eles vão dizer que isto é apenas a sua opinião. Ao se quebrar todo no chão, jogarão a culpa em você porquê torceu contra) 

Para esse pessoal Newton devia estar lendo Paulo Freire. 

O lugar que o não saber ocupa, ou melhor, desocupa. Acaba sendo preenchido com verdades absolutas, normalmente ditadas por uma “autoridade” que se estriba em valores nitidamente conservadores. 

Uma espécie de o mestre mandou que acontece num nível mental. O espaço do não pensar propício para heróis, grandes salvadores, seja da humanidade, seja da pátria. O campo do não pensar é propício para o messianismo. 

(Pequena reflexão, parece interessante que tenha sido preciso inventar o diabo, sendo muito reforçada a sua imagem pelas igrejas neopentecostais, visto que a imagem do salvador messiânico prescinde de um inimigo, que Jesus, ao que se sabe, não teve, ao menos não desta forma.) 

Para que se entenda, o espaço do não saber precisa ser ocupado para que funcione o mestre mandou, esse espaço precisa ser preenchido com o messianismo, com o inimigo imaginário sobre o qual vai recair a culpa de todos os males (do mundo e da pátria). 

Esse vazio é preenchido também com o consumismo, o que explica o manifesto dos “não pensantes” ao exigirem a abertura do comércio, num teatro onde fingem preocupação com os que necessitam trabalhar na pandemia, mas buscam apenas minimizar os prejuízos ao seu lucro. 

O hospedeiro do não pensar precisa do consumismo, pois são os símbolos do consumismo que sustentam o seu status, por isso é tão comum o não pensante ostentar carros grandes para ostentar o seu “sucesso”. Veja que quando a pessoa abdica de pensar, ela não se contenta apenas em ter, ela quer ter o da marca tal que significa ostentação e sucesso. 

Preenchido esse espaço do não pensar, com verdades absolutas alicerçadas em crenças inabaláveis, não sobre espaço para a reflexão, para o exercício do raciocínio para compreender questões simples como a importância de ouvir autoridades científicas e sanitárias durante uma pandemia. 

Não há exercício de qualquer raciocínio lógico na crença de que uma emissora de TV está causando alarmismo e sensacionalismo com relação a pandemia, quando é possível, facilmente, através da internet, constatar as consequências que o coronavírus vem causando no mundo todo (o espaço do não pensar é o escritório do negacionismo). 

O não pensar é preenchido desta forma também para que não haja espaço para escuta, quem já tentou trocar uma ideia com pessoas que optam por não pensar percebem que o diálogo é ineficaz, não porquê ela jamais vá concordar, mas porquê não há espaço para a escuta, até porquê a escuta e a reflexão podem abalar verdades “inabaláveis”. 

Por isso o debate nestes casos acaba sendo uma constante repetição de conceitos simplórios, até porquê no espaço do não pensar, não se é possível perquirir questões mais complexas, é preciso fazer simplificações rasas, ancoradas normalmente no preconceito social para conseguir defender seus pontos de vista (o argumento já vem embalado à vácuo). 

Talvez seja interessante dissertar um pouco mais sobre o ato de não pensar, visto que o espaço onde vigora o não pensar é um campo fértil para a proliferação de notícias falsas. 

Estas fakes são em sua maioria respostas rápidas e rasas sobre anseios preconceituosos das pessoas que terminam por negar a realidade, por desconhecer os fatos e propagar mentiras que confortam as verdades absolutas. 

Desta forma, as pessoas compartilham a estória fantasiosos de que uma vereadora assumidamente lésbica e casada com uma mulher, tivesse um relacionamento com um traficante. 

Se por um lado a criação da notícia falsa tem claros objetivos políticos de atingir a imagem da vereadora assassinada. Por outro lado, temos a aderência em massa “não pensante” a disseminação da fake que decorre desse eco que surge do preconceito, insistentemente repetido, de que defender direitos humanos é defender bandido. 

Vale a pena lembrar que esta fakenews foi compartilhada por uma desembargadora, o que suscita outras reflexões, mas de início esta questão nos levar a constatar que a adesão a notícia falsa não depende de uma ignorância por falta de acesso a recursos, mas de reforço das crenças preconceituosas anteriores. 

Neste sentido, a disseminação das fakenews não decorrem de um suposto potencial informativo da notícia falsa, mas sim da confirmação das crenças anteriores, na maior parte das vezes calcado em retóricas preconceituosas. 

Outra questão importante a ser refletida é que essa desembargadora não é uma mente solitária adepta do não pensar no âmbito do judiciário. 

Veja que o espaço do não pensar é preenchido por crenças, em sua maioria absolutistas e obscurantistas, que não deixam espaço para a escuta. Eis então uma questão de suma importância, como confiar na decisão de pessoas que não exercem a escuta? 

É assim que começo a entender as decisões de uma mesma turma do tribunal que me surpreendeu duas vezes ao decidir de forma contrária ao laudo pericial, com fundamentações rasteiras, que se apegam a qualquer fato divergente do laudo, usando a retórica para fermentar a robustez do suposto elemento de prova que derrega as conclusões médicas que decorrem de um exame do paciente e do seu histórico médico. Assim torna-se possível entender decisões que presumem provas que não foram produzidas nos autos. 

Pensou numa pessoa com camiseta verdade e amarela da seleção, né?!

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Rita, perdoa o preconceito estilístico


Depois de ver algumas postagens nas redes sociais falando da música da Rita, a da facada, criticando a sua “pobreza” poética e musical, fiquei refletindo o quanto o nosso conceito estético, com relação a obra artística que criticamos, pode refletir um preconceito.

 

Confesso que durante muito tempo em minha vida tive uma visão depreciativa sobre estas canções populares, julgava este tipo de trabalho por meio de uma suposta “pobreza poética”, me indagava como pode algo tão simplório ter esse êxito, esbravejando que no Brasil qualquer porcaria faz sucesso, e por aí vai.

 

Com o tempo fui percebendo que minha crítica era elitista, entender que uma música precise ter uma elaboração apurada, fazer uso das mais requintadas técnicas literárias é algo que serve para massagear o ego e tentar justificar um preconceito musical.

 

Embora não encontre qualquer afinidade literária com os versos da letra de Rita, me livrar do preconceito me ajudou a apreciar, mesmo aquelas obras que num primeiro momento eu julgava inaudíveis. E vamos combinar que esta música está se comunicando com o seu público, simples.

 

Nem todos vão se identificar com o belíssimo amor de Ulisses e Penélope, agora o verso “volta que eu perdoo a facada” tenho certeza que fez alguns amigos lembrarem um amor que deixou marcas.

 

Eu aprecio uma música clássica no piano ou com orquestra. Porém hoje entendo que não vou macular meus ouvidos virgens se ouvir uma música daquelas que toca em zona que a puta cheira a amor gaúcho e acerta o preço contigo fumando um derby do maço vermelho.

 

A técnica pode ser a maquiagem da mediocridade. Somos constantemente colonizados pelo nosso estilo, pela nossa escola musical; passamos a colocar uma cerca para delimitar o que no nosso entendimento é bom. Chavões como “existe música boa e ruim” criam este cercamento, esse rótulo para o que não alcança um determinado padrão estético que estabelecemos.

 

Promovemos uma espécie de vestibular artístico para saber se a obra vai ser aprovada pelos nossos critérios. Fazemos o imposto de renda das palavras para saber acerca da riqueza das rimas. Julgamos a obra e o público, como se eles tivessem culpa de se comunicarem, de se entenderem e de não nos entenderem.

 

Somos tomados de soberba porque a leitura e a técnica nos armaram, nos sentimos com o porte de poesia. E as vezes temos um verso muito bem escrito e admirado, porém, apenas por outros poetas.

 

Tem algum tempo que digo que a crítica não deve ser direcionada ao trabalho do artista, apontando o dedo pra determinar o que é ruim, mas sim para os veículos de comunicação que se corromperam com a prática do jabá e muitas vezes transformam uma música num sucesso instantâneo que somos obrigados a conhecer.

 

A perversão do sistema que leva concessões públicas a se dobrarem ao poder financeiro é que deve ser objeto de crítica e não a obra. Mais importante que criticar a obra, penso, é querer garantir que quem curte a facada da Rita, possa ter acesso ao verso perfeito do amor de Penélope e Ulisses, que num primeiro momento vai parecer um romance sem muita emoção.

 

Não devemos pensar em colonizar o mundo com nosso apuro técnico, mas tentar garantir que possam conhecer o que fazemos. Temos liberdade artística, mas preferimos permanecer trancados nos nossos rótulos estéticos e estilísticos.

 

Esse preconceito acaba criando uma falsa crença de que o que apreciamos está num degrau intelectual mais alto, cria-se a ideia de que a arte que faço e consumo não é para todos, porque ela é muito genuína, autêntica, elaborada e blábláblá. Em síntese, “nego bom não se mistura” DOS PAMPAS, Crioulo (campeiro erudito deve se isso).

 

Enfim, as bases de quem critica a Rita são as mesmas do conceito do “campeiro erudito de outros tempos” que um Platão pampeano tentou definir ao criticar os mais de 60 mil expectadores da live do Baitaca, numa tentativa filosófica de tirar o povo “do fundo da grota”.

 

Nesta oportunidade, não faltou quem criticasse o preconceito manifestado, defendendo os aspectos populares da obra do cantor missioneiro. Não podemos agora ser hipócritas de achar que o Baitaca é o Fernando Pessoa comparado a música da Rita.

sábado, 5 de dezembro de 2020

OS PUNHAIS DA TUA AUSÊNCIA



O meu corpo já hospeda
os punhais da tua ausência,

com o terço das distâncias
cumpro minha penitência.

Nas adagas da demora
o gume cego da espera

transpassa dentro do peito,
onde mais me dilacera.

Nos punhais da tua ausência
toda lembrança agoniza

e deixa em mim estas chagas
que o tempo não cicatriza.

Suturo o peito ferido
com as linhas dessa história,

pois se a distância nos fere
tudo que resta é a memória.

Os punhais da tua ausência
se alimentam do meu sangue

com suas lâminas alojadas
em meu peito já exangue.

Sobrevivo aos punhais
dessa ausência carcereira

-Prisioneiro dessa dor
que pensei ser passageira...

Antonio Guadalupe
@oantonioguadalupe

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

O processo criativo da canção e os vilões da criatividade

Fiz uma oficina sobre o processo criativo da canção, ministrada por dois ícones da música regional gaúcha, Luiz Carlos Borges e Vinícius Brum. Batizada de Roda de Prosa, a oficina se desenvolveu em três encontros, com trocas de experiência e muitas histórias sobre canções. 

Uma das propostas para os encontros era a criação de uma canção coletiva composta pelos participantes com a supervisão dos ministrantes da oficina. Após uma semana do primeiro encontro, acabei sendo o primeiro a arriscar alguns versos, o que me rendeu a braçadeira de capitão no time da letra da canção. 

Depois de esboçar uma letra e achar que o trabalho coletivo estava sendo muito solitário, resolvi distribuir o jogo, chamar os outros colegas a participarem da letra. Escrevi outros versos, joguei no grupo do whats e chamei os colegas a contribuírem com versos, estrofes ou simplesmente com ideias. 

Poucos colegas se animaram a contribuir com o trabalho, mesmo assim, reuni as poucas e parcas contribuições feitas e escrevi outra letra. O Vinícius sugeriu que todos tentassem modificar a metrificação da letra, o que não foi atendido por ninguém. 

Foi aí que eu percebi que o trabalho seria realmente solitário, então na quinta-feira antes do último encontro da oficina peguei outra ideia e escrevi outra letra, que acabou sendo elogiado pelo Vinícius Brum e pelo Luiz Carlos Borges no momento que postei no grupo. 

Confesso que fui para o último encontro envaidecido pelos elogios que recebi à letra que escrevi, o que foi perturbado no momento em que, na reunião virtual da oficina, uma das participantes sugeriu mudanças na letra que escrevi porque ela achava que dizer “os versos cortam os pulsos” não ornava com o lirismo do poema. 

Confesso que daí por diante o ranço se instaurou no meu meigo coração, até porque já não era o primeiro comentário desnecessário que fazia ao que vinha sendo desenvolvido. Quando havia uma letra para ser construída coletivamente não deu nenhuma contribuição, agora queria mudar o que escrevi. 

Fiquei indignado com a soberba da pessoa que leu o que escrevi no máximo duas vezes e acredita que pode mudar, com base apenas no achismo, a letra que passei quatro horas escrevendo. O Borges me chamou para dizer o que achava da sugestão e confesso que o pouco que consegui dizer foi que uma mudança na estrofe afetaria o sentido poético da letra. 

Não consegui dizer muito mais, porquê além de estar irritado com a situação, havia um abismo de compreensão dos sentidos interpretativos do que estava escrito (quatro horas de leitura e escrita, contra no máximo duas leituras do texto). Era como tentar explicar controle de constitucionalidade pra uma criança fazendo birra. 

Pra minha alegria, o Vinícius Brum fez uma defesa poética, bem fundamentada, da letra que escrevi, me senti honrado pelas palavras. E no fim prevaleceu o que eu havia escrito, como devia ser. 

Estou contanto essa história porquê tenho lido sobre bloqueios criativos e uma das coisas que aprendi com estas leituras é que este tipo de pessoa costuma ser um dos vilões da criatividade artística. São pessoas que não escrevem, não estudam, mas julgam que com apena uma leitura podem modificar o trabalho artístico alheio. 

É como se depois de se trabalhar no projeto, na fundação, nas estruturas e na construção da casa, a pessoa aparece do nada e pede pra mudar as janelas, simplesmente porque acha que não ornou com o restante da obra. 

São carrapatos da criatividade alheia que parasitam sobre o trabalho artístico dos outros. São daquele tipo de pessoa que aparecem no dia da entrega e pedem pra pôr o seu nome no trabalho que não ajudaram a fazer. 

Com conceitos medíocres sobre arte, acham que escrever é jogar o que sentem no papel, acreditando que quem lê deve sentir o mesmo por causa disso. Escrever o que se sente serve como um escudo pra blindar a falta de capacidade criativa. 

Porém, quando se trata de processo criativo não estamos falando de sentimentos, mas de técnica. Uma letra não fará quem lê sentir raiva, tristeza ou revolta, porque o escritor jogou isso no papel, mas sim porquê foram usadas as ferramentas da linguagem adequadas para despertarem estes sentidos em quem lê/ouve a obra de arte. 

Agora voltando para a letra escrita por mim, preciso confessar que não escrevi nada do que penso ou sinto sobre o tema, bem pelo contrário. Para o meu gosto poético a letra é bem comum, a única estrofe que gosto de verdade e acho bem escrita é segunda, exatamente a que sugeriram mudar. 

Essa é a única estrofe de toda a letra escrita com uma densidade interpretativa mais profunda, onde busco dizer algo que não está escrito. Ela está escrita para gerar essa quebra na ideia de que criar é um ato divino contido na primeira estrofe. 

Essa imagem mais impactante que causa desconforto em alguns leitores não está escrita de forma aleatória, ela é fruto de uma escolha pautada pela técnica. Eu poderia escolher outra imagem, outras palavras e outras rimas, porém, nenhuma delas causaria esse impacto que eu queria causar. 

Furtar-se dos comentários dos prepotentes que se julgam artistas e querem a todo custo modificar aquilo que não entendem na obra dos outros é um desafio para blindar a nossa criatividade de ser sacrificada pelos vilões da criatividade. 

Eis a letra escrita sobre o tema "Missão, vocação e festa" proposto pelo Vinícius Brum no primeiro encontro e o vídeo do último encontro, onde ela foi musicada: 

Missão é um sopro divino
que acende em cada destino
As brasas da inspiração
Acende um dom musiqueiro
Que o coração cancioneiro
Vai transformar em canção.

Na rapidez dos impulsos
Os versos cortam seus pulsos
Pra sangrar nas entrelinhas
Na lucidez dos compêndios
Acendem outros incêndios
Pra queimar ervas daninhas.

Na vocação das guitarras
Que plangem prantos e farras
Nenhum encanto se quebra
As brasas jazem dormidas
Pra costurar as feridas
Que o cancioneiro celebra.

No desatino dos dramas
Acordes queimam nas chamas
Os pensamentos ranzinzas
Inspirações passageiras
Acordam velhas fogueiras
Adormecidas nas cinzas.

Missão é um sopro divino
que acende em cada destino
As brasas da inspiração
Não há razão que a detenha
Que o cancioneiro tem lenha
Pra incandescer a canção.



Das travessias intrínsecas

Lembro que eu devia ter por volta de dez anos, estava jogando bola na frente de casa quando ouvi o burburinho de que meu irmão tinha sido at...