Habeas Ideas significa ideias soltas. Aqui as palavras são o alvará de soltura por meio da qual algumas ideias buscam liberdade.
sábado, 19 de dezembro de 2020
A história por trás das canções: Pra renascer na garganta
DE ESPORAS E RUMOS
adaga sob os pelegos;
cantam esporas nas pedras
pra avisar quando chego...
Guardo horizontes nos olhos,
distâncias no coração...
Risquei os mapas da pampa
de rédea firme na mão!
Garanto o meu sustento
só com a força do braço
e quando falta serviço,
me viro bem com meu laço!
Fiz fama pelas carreiras
e nas carpetas de truco,
se a sorte não negaceia
eu multiplico meu lucro!
Gastei esporas e rumos
domando estradas e potros;
se fiz cavalos de lei
foi sempre pra o andar dos outros...
Herdei distâncias e penas,
poncho com marcas de bala
e uma garrucha sem nome
que “hace tiempos” não fala!!
Não saco as armas do cinto
pra brigar por ninharia,
nem sujo as mãos com o sangue
da inveja ou da covardia...
Mas quando o baile se encrespa
e o candeeiro se apaga
pra garantir a coragem,
a precisão de uma adaga!
Conheço bem os atalhos
que existem pelo caminho;
às vezes levam às flores
n’outras conduzem a espinhos...
A estrada é feita de rumos,
sempre chegar ou partir;
e eu sigo andando a esmo
como quem foge de si...
sexta-feira, 18 de dezembro de 2020
UMA FÁBULA FESTIVALEIRA: O CANÁRIO BELGA E O ANU
quarta-feira, 16 de dezembro de 2020
O ENGAJAMENTO DA ESTUPIDEZ

Tenho notado que a estupidez sempre gera ibope nas redes sociais. Os comentários mais estapafúrdios, desprovidos de bom senso, que buscam um pré-sal do ridículo acabam sendo, muitas vezes os mais comentados de uma postagem na rede social.
Tem algum tempo que tenho refletido buscando entender qual é o impulso que leva a esta alta demanda de respostas para os comentários mais imbecis. Inicialmente eu acreditava que fosse algum tipo de impulso que decorresse de uma necessidade de não deixar o absurdo sem resposta, algo como “se a gente não responder isso passa a ser verdade”.
Porém a demanda de respostas costuma ser tão grande que essa teoria me pareceu insuficiente para responder, afinal de contas, se uma pessoa respondeu, está respondido.
Foi então que comecei a entender que o impulso mais forte que atua neste momento é o “olha lá um idiota comentando merda na rede social, vamos lá refutar as idiotices que ele tirou do whatsapp com argumentos.” É um instinto de prevalecimento que vigora nesta hora, a possibilidade de tripudiar de uma pessoa que claramente abandonou qualquer possibilidade dos neurônios fazerem uma sinapse.
É fácil de bater, costuma não entender ironia, o que torna tudo mais engraçado. Pessoas que acreditam que se elas tiverem um canhoto do próprio voto podem evitar ou até mesmo comprovar uma fraude. Convenhamos que não vale a pena desperdiçar pensamento lógico e racionalidade com quem defende essa ideia, tipo, a pessoa acha que se ter um canhoto do próprio evita fraude.
E faz como, chega alegação de fraude no TSE aí os mesários são convocados pra pegar os canhotos tudo de volta pra conferir?! Se a pessoa é tipo eu que não lembra onde guardou o comprovante? Meu voto vai contar como nulo na recontagem?! Esse é o tipo de pessoa que se dizem que tem pau pequeno exige recontagem...
Agora, voltando ao impulso, o grande ponto é este, a excitação intelectual que as pessoas sentem ao poder expor a ignorância do outro, desfiando seus mil e um argumentos cientificados, recheados de dados, dando um verniz de intelectualidade para algo que merece apenas escárnio e deboche. O tiozão fala que a terra é plana e a caixa de comentários vira um seminário da USP.
E o pior é que o astro é o terraplanista, que se sente importante porque teve inúmeras respostas pra imbecilidade que ele escreveu. Pra uma mentalidade formada através de uma lavagem cerebral perpetrada através de fakenews, o volume de respostas acaba tendo um efeito validador.
Na cabeça dele tá pipocando “pra tá toda essa gente me respondendo é porque eu disse algo muito foda”. Isso faz ele se sentir importante, alguém que detém uma grande verdade que querem calar. Então quando maior for o espancamento intelectual, mais as pessoas que batem se sentem satisfeitas de ter um judas para apedrejar.
E do lado desfavorecido intelectualmente, há apenas o reforço das ideias já pré-instaladas, gerando o sentimento de validação porque tem um monte de “esquerdopata” tentando “calar” esse grande portador da verdade suprema que lhe foi enviada por Deus através de um grupo no whatsapp.
Assim perpetua-se um eterno ciclo que longe de estabelecer qualquer diálogo, qualquer crescimento, apenas reforça a polaridade que há tempos está vigendo no país. Não se leva a sério este tipo de pessoa e seus discursos.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2020
O artifício do não pensar
terça-feira, 8 de dezembro de 2020
Rita, perdoa o preconceito estilístico
Depois de ver algumas postagens nas redes sociais falando da música da Rita, a da facada, criticando a sua “pobreza” poética e musical, fiquei refletindo o quanto o nosso conceito estético, com relação a obra artística que criticamos, pode refletir um preconceito.
Confesso
que durante muito tempo em minha vida tive uma visão depreciativa sobre estas
canções populares, julgava este tipo de trabalho por meio de uma suposta “pobreza
poética”, me indagava como pode algo tão simplório ter esse êxito, esbravejando
que no Brasil qualquer porcaria faz sucesso, e por aí vai.
Com
o tempo fui percebendo que minha crítica era elitista, entender que uma música
precise ter uma elaboração apurada, fazer uso das mais requintadas técnicas
literárias é algo que serve para massagear o ego e tentar justificar um
preconceito musical.
Embora
não encontre qualquer afinidade literária com os versos da letra de Rita, me
livrar do preconceito me ajudou a apreciar, mesmo aquelas obras que num
primeiro momento eu julgava inaudíveis. E vamos combinar que esta música está
se comunicando com o seu público, simples.
Nem
todos vão se identificar com o belíssimo amor de Ulisses e Penélope, agora o
verso “volta que eu perdoo a facada” tenho certeza que fez alguns amigos
lembrarem um amor que deixou marcas.
Eu
aprecio uma música clássica no piano ou com orquestra. Porém hoje entendo que
não vou macular meus ouvidos virgens se ouvir uma música daquelas que toca em
zona que a puta cheira a amor gaúcho e acerta o preço contigo fumando um derby
do maço vermelho.
A
técnica pode ser a maquiagem da mediocridade. Somos constantemente colonizados
pelo nosso estilo, pela nossa escola musical; passamos a colocar uma cerca para
delimitar o que no nosso entendimento é bom. Chavões como “existe música boa e
ruim” criam este cercamento, esse rótulo para o que não alcança um determinado
padrão estético que estabelecemos.
Promovemos
uma espécie de vestibular artístico para saber se a obra vai ser aprovada pelos
nossos critérios. Fazemos o imposto de renda das palavras para saber acerca da
riqueza das rimas. Julgamos a obra e o público, como se eles tivessem culpa de
se comunicarem, de se entenderem e de não nos entenderem.
Somos
tomados de soberba porque a leitura e a técnica nos armaram, nos sentimos com o
porte de poesia. E as vezes temos um verso muito bem escrito e admirado, porém,
apenas por outros poetas.
Tem
algum tempo que digo que a crítica não deve ser direcionada ao trabalho do
artista, apontando o dedo pra determinar o que é ruim, mas sim para os veículos
de comunicação que se corromperam com a prática do jabá e muitas vezes
transformam uma música num sucesso instantâneo que somos obrigados a conhecer.
A
perversão do sistema que leva concessões públicas a se dobrarem ao poder
financeiro é que deve ser objeto de crítica e não a obra. Mais importante que
criticar a obra, penso, é querer garantir que quem curte a facada da Rita,
possa ter acesso ao verso perfeito do amor de Penélope e Ulisses, que num
primeiro momento vai parecer um romance sem muita emoção.
Não
devemos pensar em colonizar o mundo com nosso apuro técnico, mas tentar
garantir que possam conhecer o que fazemos. Temos liberdade artística, mas
preferimos permanecer trancados nos nossos rótulos estéticos e estilísticos.
Esse
preconceito acaba criando uma falsa crença de que o que apreciamos está num
degrau intelectual mais alto, cria-se a ideia de que a arte que faço e consumo não
é para todos, porque ela é muito genuína, autêntica, elaborada e blábláblá. Em
síntese, “nego bom não se mistura” DOS PAMPAS, Crioulo (campeiro erudito deve
se isso).
Enfim,
as bases de quem critica a Rita são as mesmas do conceito do “campeiro erudito
de outros tempos” que um Platão pampeano tentou definir ao criticar os mais de 60
mil expectadores da live do Baitaca, numa tentativa filosófica de tirar o povo
“do fundo da grota”.
Nesta
oportunidade, não faltou quem criticasse o preconceito manifestado, defendendo os
aspectos populares da obra do cantor missioneiro. Não podemos agora ser
hipócritas de achar que o Baitaca é o Fernando Pessoa comparado a música da
Rita.
sábado, 5 de dezembro de 2020
OS PUNHAIS DA TUA AUSÊNCIA
os punhais da tua ausência,
cumpro minha penitência.
o gume cego da espera
onde mais me dilacera.
toda lembrança agoniza
que o tempo não cicatriza.
com as linhas dessa história,
tudo que resta é a memória.
se alimentam do meu sangue
em meu peito já exangue.
dessa ausência carcereira
que pensei ser passageira...
terça-feira, 1 de dezembro de 2020
O processo criativo da canção e os vilões da criatividade
Missão é um sopro divino
que acende em cada destino
As brasas da inspiração
Acende um dom musiqueiro
Que o coração cancioneiro
Vai transformar em canção.
Na rapidez dos impulsos
Os versos cortam seus pulsos
Pra sangrar nas entrelinhas
Na lucidez dos compêndios
Acendem outros incêndios
Pra queimar ervas daninhas.
Na vocação das guitarras
Que plangem prantos e farras
Nenhum encanto se quebra
As brasas jazem dormidas
Pra costurar as feridas
Que o cancioneiro celebra.
No desatino dos dramas
Acordes queimam nas chamas
Os pensamentos ranzinzas
Inspirações passageiras
Acordam velhas fogueiras
Adormecidas nas cinzas.
Missão é um sopro divino
que acende em cada destino
As brasas da inspiração
Não há razão que a detenha
Que o cancioneiro tem lenha
Pra incandescer a canção.
Das travessias intrínsecas
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