segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Falando em picanha

Há quem diga que nos tempos atuais é preciso dizer o óbvio. Penso que na verdade estamos em uma parte mais funda do poço chamado ignorância, visto que se faz necessário explicar o óbvio.

 

Ainda há poucos dias nas redes sociais estavam precisando explicar que a “picanha” da campanha eleitoral é uma metáfora para dizer que... ah! Não vou explicar o óbvio.

 

(Vozes na minha cabeça:

-Tu não sabe o que significa essa metáfora, né?

-É claro que sei.

-Então o que significa.

-Eu sei, mas não vou dizer.

-Então fala, se tu sabe.

-Sei, melhor que tu.)

 

Enfim, quem frequenta o supermercado e testemunhou a inflação corroer o poder de compra certamente consegue entender o significado desta metáfora.

 

Mas alguns abençoados precisaram que fosse explicado para eles que não haverá distribuição de picanha e cerveja num guichê. Citando o pensador contemporâneo Casimiro: “Hoje em dia é necessário dizer o óbvio. [...] O óbvio virou genial!”

 

Só queria escrever um pouco sobre esse assunto porquê sonhei que estava chovendo picanha. Acho que vou jogar no bicho...

quinta-feira, 2 de junho de 2022

MUITO ALÉM DA TATUAGEM NO TOBA

A polêmica do momento de alguns artistas sertanejos versus a Anitta trata de um assunto sobre o qual já escrevi algumas vezes (não estou falando da tatuagem no toba dela), o jabá.

Em entrevista ao canal Corredor 5, Kamilla Fialho, ex-empresária da cantora Anitta, contou em um vídeo viralizado que pagava para tocar música da funkeira nas rádios, mas que empresários do sertanejo cobriam oferta para boicotá-la.

Há tempo que se naturaliza a relação promíscua entre gravadoras/produtores e rádios que são cooptadas para rodarem apenas as músicas dos artistas que pagam altos valores, o que explica porque estão dominando as paradas de sucesso há tanto tempo.

A cereja do bolo neste assunto é que passam anos e as pessoas não fazem a mínima questão de buscar conhecimento (conforme já aconselhava o ET Bilú em 2010) e seguem espalhando ignorância e mentiras sobre as leis de incentivo à cultura.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, criou-se o paradoxo da besta nativista, que é basicamente um ser que milita nas redes sociais contra as leis de incentivo a cultura, ao mesmo tempo em que reclama que os festivais de música nativista estão deixando de acontecer.

Hoje a cena do filme "Dois filhos de Francisco", onde o pai de Zezé di Camargo passa o dia ligando para uma rádio para que a emissora tocasse a canção de seu filho, não passa de uma imagem romântica que os próprios protagonistas ajudaram a fazer desaparecer.

terça-feira, 29 de março de 2022

O LIMITE DA HONRA E AS FRONTEIRAS DO HUMOR

No domingo o mundo assistiu incrédulo a cena do Will Smith dando um tapa em Chris Rock durante a cerimônia de entrega do Oscar. No grupo de comediantes, onde fiquei sabendo do fato em primeira mão, os participantes se perguntavam se era de verdade ou encenação (uma mistura de meme de Batman dando um tapa no Robin com Dona Florinda batendo no Seu Madruga).


Fui pesquisar em busca de notícias que pudessem me informar o que havia acontecido. O assunto rapidamente se tornou pauta nas redes sociais, inundada de discursos que visavam justificar a agressão perpetrada por Will Smith.


Achei curioso que a mesma sociedade que algumas semanas atrás condenava Maria do BBB 22 pelo episódio do balde, agora aplaudia a agressão do Will Smith, e, pasmem, com o discurso de defesa da honra do século retrasado.


Diante de tantos discursos a favor da família, que mais lembravam o impeachment da Dilma na Câmara dos Deputados, meu interesse era saber o que exatamente tinha sido falado.


Quando cheguei a piada pura, despida dos filtros dos interlocutores intermediários, não encontrei qualquer conotação depreciativa. A piada de Chris Rock é: "Jada, te amo, G.I. Jane 2, mal posso esperar para ver" fazendo referência a um filme protagonizado por Demi Moore em que a atriz aparece de cabeça raspada por estar servindo o exército.


A comparação não é feita como algo pejorativo ou depreciativo, pelo contrário, visto que a protagonista do filme é uma figura feminina forte e determinada. Se a comparação fosse com a intenção de ofender, seria melhor compará-la com o personagem Walter White de Breaking Bad, ou com Arthur Aguiar que tem o cabelo raspado e pulou a cerca no casamento.


Se quisesse fazer piada ofensivas à condição da Jada, Chris Rock diria “Ei, Jada, belo corte de cabelo. Posso imaginar a felicidade do Will ao não encontrar mais tufos de cabelo do ralo do banheiro. Se bem que ele deve ter perdido a diversão de bater uma no banho e ver a porra indo embora grudada num fio do tufo de cabelo que nem um tarzan de semen indo pro esgoto. O Will revelou que sem o som do prestobarba na parede, o dia de transar é sempre uma surpresa.”


Se eu fosse o Chris Rock e soubesse que ia levar um tapa teria feito estas piadas, pra sentir no fim que valeu a pena. E depois do tapa diria: “Levei um tapa do Will Smith. Ele bate que nem um branco num campo de golfe. É fácil entender porque não ganhou o Oscar interpretando o Muhammad Ali.”


O Will Smith, óbvio, ia subir de novo no palco  e dar um soco no Chris Rock, ao que ele responderia: “Pelo visto fiz piadas mais cabeludas que o alienígena de Independence Day, ele apanhou só uma vez!”


Minha imaginação foi longe, mas apenas para dar exemplo de piadas que realmente seriam ofensivas, diferente da piada do Chris Rock que não tinha qualquer viés depreciativo. Evidente que pelo assunto ser sensível, tanto Jada quanto Will podem se sentir ofendidos, porém o direito de se sentir ofendido não torna a agressão um ato legítimo.


Da mesma forma que os discursos recheados de supostos valores morais também não legitimam a violência, apenas revelam os instintos mais primitivos de pessoas que condenam a guerra do presente, enquanto comemoram a guerra do passado, porque está lhe forjou os valores que fazem acreditam que a sua violência é legítima.


Will Smith já se manifestou buscando se retratar e pediu desculpa ao Chris Rock pelo episódio, enquanto isso temos defensores da honra que ainda não conseguiram admitir o erro do outro, que seguem na tentativa de justificar a violência em nome da sua subjetiva “honra”.


Muitos homens que nas redes sociais defendem a honra da mulher, mas que no mundo real, num tapa, perderiam ela pra um mendigo…


Das travessias intrínsecas

Lembro que eu devia ter por volta de dez anos, estava jogando bola na frente de casa quando ouvi o burburinho de que meu irmão tinha sido at...