quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

EM CADA COMENTÁRIO UM PAU DE ARARA

Quantas vezes nos deparamos com comentários do tipo “fala de humor/música que é melhor”, na postagem de um músico ou comediante que se posiciona de forma contrária ao governo? 

Quantas vezes tu, artista, lixeiro, poeta, carpinteiro, manicure, ser pensante, se deparou com a sentença “preferia quando não falava de política”, em alguma postagem crítica ao presidente? 

Que tempos sombrios são estes, onde a plateia mais do que o seu direito de aplaudir ou vaiar a obra, vindica liberdade para sequestrar a opinião política de um artista? 

Agora em cada caixa de comentário há um pau de arara para torturar a sensatez; do outro lado da tela se reproduzem censores tentando impor um cale-se a quem ouse atentar contra a imagem do imaculado. 

Talvez a imagem que melhor descreva o pretenso autoritarismo dessa legião ruminante seja a de que as redes socais estão repletas de pequenos Quicos gritando “cale-se, cale-se, você me deixa louco!” a cada postagem que contraria sua fonte de informação: o whatsapp. 

Esses comentários partem de pessoas que não compartilham um flyer de show ou live para ajudar ao artista do qual se diz amigo, mas para dizer que não deveria falar de política passam horas despejando ódio e print de fakenews na página alheia. 

Cada dia sentem-se mais à vontade para entrar na página de um artista e com a maior empáfia do mundo dizer sobre o que deveria ou não falar, muitas vezes tentando desclassificar como artista aqueles que expressam a sua opinião política. 

Há quem em nome do número de seguidores vá aceitando o seu silenciamento; há quem tente dialogar racionalmente com o ódio e a mentira por conta do seu espírito democrático. 

Admiro quem se furta de bloquear a excluir essa gente das suas redes sociais, porém faço questão de não esquecer de que numa ditadura esse é o tipo de gente que vai fazer de tudo pra te jogar aos lobos e número de seguidores não garante lugar VIP no pau de arara. 

Em tempos de discurso de ministro com citação de discurso nazista, de manifestações contra as instituições democráticas e uma tentativa constante de silenciamento ao artista crítico ao governo, sou forçado a lembrar da citação atribuída a Edgar Allan Poe "A melhor forma de esconder alguma coisa é deixá-la à vista de todos"...

domingo, 17 de janeiro de 2021

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Dr. Wagner de Almeida Júnior, apelidado de Dr. Vaguinho na infância por desde cedo dizer que queria seguir os passos paternos na advocacia. Acabou sucedendo ao pai na sociedade da maior banca de advocacia da cidade, os demais sócios aceitaram a sua admissão mais em deferência ao genitor do que pelos seus méritos. 

Nos bastidores o que se comentava ironicamente era que em 15 anos a frente do setor de direito do consumidor, sua melhor providência foi comprar um desses aspiradores de pó inteligentes, as salas, corredores e carpetes do escritório nunca tiveram mais limpos. Dr. Vaguinho, no entanto, caçoava do termo inteligência que davam a “um simples eletrodoméstico”, como costumava dizer ao passar pelo aparelho. 

A relação com o aspirador de pó mudou quando se divorciou e passou a morar em um apartamento que em virtude das desventuras de um homem recém separado vivia bagunçado. Numa noite de sexta, depois correr contra o tempo para fazer o peticionamento eletrônico de um prazo que acabava meia noite, decidiu levar o aspirador para o seu apartamento ao encontrá-lo, antes de fechar o escritório, carregando pelo cabo USB no computador da recepção. 

Desde então a vida de homem e máquina mudaram, Vaguinho apelidou o aparelho de Casagrande, que era tratado como um animal de estimação que não exigia qualquer compromisso com deveres fisiológicos. Já o aspirador de pó trocou as manhãs e tardes perambulando pelo corredores e salas do escritório, onde advogados peticionavam e se preparavam para as suas audiências, por cerca de 12 horas ininterruptas aspirando todo o tipo de sujeira, de bagana de cigarro a caco de vidro de copo de uísque. 

Depois de algumas semanas, ao chegar do trabalho numa sexta-feira não encontrou o aspirador. Wagner vagava pela casa chamando o aparelho como se estivesse procurando um cachorro, após um dia de trabalho. Passou aquele final de semana investigando cada canto da casa e se perguntando como Casagrande teria escapulido. 

Pensou em fazer cartazes e procurar pela vizinhança, mas desistiu da ideia porque poderiam descobrir no escritório quem era o responsável pelo sumiço do aparelho. Porém, não tardou a receber notícias do aspirador de pó. 

Numa manhã de segunda-feira, num envelope timbrado com o nome Casagrande e um número de série, Dr. Vaguinho recebia a intimação de uma ação trabalhista movida pelo aspirador de pó exigindo pagamento de horas extras, insalubridade e desvio de função. 

Dr. Wagner descobriu que o aspirador era inteligente mesmo.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

DIA DO COMPOSITOR

Hoje é dia do compositor e eu lembro que desde muito novo, sempre tive curiosidade de olhar nos encartes dos LP’s pra saber quem era o autor (ou autores) de alguma música que eu tinha gostado de ouvir rodando na agulha do toca disco.

Depois, aos 14 anos eu fazia aula de violão com o membro de um grupo que estava na fase de pré-produção da gravação de um disco, escolhendo as últimas músicas que seriam gravadas, foi quando eu vi, pela primeira vez, a oportunidade de colocar o meu nome no encarte de um disco.

As minhas letras não foram gravadas no CD do conjunto, mas alguns meses depois eu saia de um estúdio no Bairro Simões Lopes com a primeira gravação de uma letra que escrevi falando de algumas inquietudes das minhas noites de insônia.

Escrevi outros versos que gravei, me atrevi a procurar um punhado de poetas que acreditassem que eu podia dar uma melodia para os seus versos, saí da minha cidade e fui conhecer outros lugares na garupa das canções que eu mesmo fiz com o meu violão.

Passaram-se cerca de 22 anos desde então, e embora eu tenha gravado bem poucas das minhas composições, com exceção de uma que permanece inédita, todas me proporcionaram a oportunidade de levar minhas ideias e criações a palcos nos mais diversos rincões, inclusive virtuais.

Cada apresentação guarda a sua história, da vez que eu errei o andamento de um chamamé que era pra sair dolente e saiu bailado de levantar a poeira do salão, à vez que o diretor de palco dava pulos porque a minha música era primeira da noite e eu dizia no telefone pra ele mandar alguém fazer um show de abertura voz e violão que eu ia me atrasar pro festival.

Sempre fui do tipo sestroso pra receber elogios, mas sempre guardei com carinho cada palavra dirigida ao meu trabalho, ainda me surpreendo quando leio alguém falando bem de alguma das minhas composições por aí.

Hoje os discos são virtuais, já não tem mais o encarte, e a esta altura imagino que já tenha registrado meu nome mais vezes no serasa do que em discos, porém ainda permanece vivo o desejo de tornar-me criador ante novas criações.

Parabéns a todos os compositores pelo seu dia!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

PRA QUEM JÁ VENDEU UM AMIGO

Hoje fiquei sabendo que um colega músico vendeu o seu violão para poder sobreviver a estes tempos difíceis em que não pode se sustentar tocando nos bares da cidade, ofício que já exerce há mais de três décadas. 

Agora ele mostra o seu trabalho em lives semanais, onde toca com um instrumento emprestado para arrecadar o suficiente para garantir o arroz com linguiça da semana. 

Essa é uma notícia que devasta o coração de um músico, saber que um colega teve que se desfazer do seu instrumento de trabalho para garantir que amanhã tenha pão na mesa. 

Pra quem não vive de música é apenas um negócio, uma simples transação de compra e venda, mas para o músico obrigado vender o instrumento é como vender uma testemunha da própria história, é como ser alijado do melhor amigo. 

Quantas noites de insônia galopou a tristeza nos braços do violão, fiel depositário dos seus segredos e angústias? Uma caixa de pandora que agora se abre às mãos de um novo dono. 

Essa história me lembra a do Sylvester Stallone, que precisou vender o seu cachorro para sobreviver e o comprou de volta quando conseguiu vender o roteiro de Rocky, sem a parte de conseguir comprar o amigo de volta.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

A história por de trás das canções: A fome


Em uma das edições do Reponte, eu estava próximo ao bar e escutava uma conversa do Bosquinho com alguém que não me lembro quem é neste momento.

Eu só tava bisbilhotando a conversa alheia porquê o Bosquinho estava falando sobre a dificuldade de musicar um soneto, foi aí que a conversa chamou minha atenção.

Ele disse, na ocasião, que no entendimento dele um soneto bem musicado não pode ter apenas uma melodia pros quartetos e outra para os tercetos, mas sim uma melodia para cada estrofe.

Como já tinha uma parceria com o poeta Vaine Darde, naquela semana vasculhei entre os sonetos dele algum que fosse do meu agrado para poder pedir pra musicar na cara dura.

Encontrei um soneto carregado de dor e lirismo, que teve o meu pedido pra musicar aceito pelo poeta.

A melodia nem parece que eu fiz, porquê eu estava pra fora, sentado à mesa quando os versos vieram a minha cabeça com a melodia. 

Imediatamente fui pro quarto, peguei o soneto e o violão e os acordes vinham se encaixando com a mesma naturalidade que a melodia surgiu.

Essa parceria me permitiu estrear no palco da Coxilha em sua 30ª Edição.

O COMPLEXO DE CUSCO


Algo que chama muito atenção nas redes sociais é que as pessoas se esforçam muito mais para falar mal daquilo que acham horrível do que pra promover aquilo que gostam. 

É simplesmente bizarro a pessoa fazer questão de compartilhar na sua linha do tempo um negócio que acha ruim, acompanhado de um textão e ainda convidar os seus companheiros de redes sociais para apreciar o quanto aquilo é abominável. 

As redes sociais dotaram as pessoas de uma síndrome de heroísmo, onde elas sentem que precisam salvar olhos e ouvidos alheios do que supõem ser de péssimo gosto artístico. 

Mas no fim, as postagens não passam de uma mera fogueira da inquisição acesa com o fogo das vaidades dos que julgam que sua erudição pode definir o que é música, o que é arte e o que não é nada disso. 

Ao me deparar com este tipo de postagem, onde o autor faz questão de mostrar o quanto aquilo é horrendo, costuma me ocorrer o mesmo pensamento: “Pois eu não conhecia até tu apresentar”. 

É como a pessoa comprar um quadro do Romero Brito e colocar na sala de casa só pra mostrar às visitas o que quanto aquela obra de arte é cafona. 

O irônico é que o trabalho considerado ruim ganha mais visualizações e engajamento, enquanto o trabalho de tantos colegas de arte não merece, aparentemente, nem um compartilhamento. 

Notamos aí a síndrome do cusco que corre atrás dos automóveis. Não vai mudar o destino do carro, mas se sente feliz por poder mijar na roda.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

CRÔNICA: DIA DO LEITOR

Na casa onde cresci não havia nenhuma biblioteca, nem mesmo daquelas bastante simples. O mais perto de uma biblioteca que havia em casa era uma pequena enciclopédia de capa dura em quatro volumes, toda em vermelho com detalhes dourados nas bordas. 

Comparada a barça, nossa enciclopédia era o Vasco da Gama. 

Embora ainda não fosse alfabetizado, suas páginas fascinavam minha curiosidade infantil, me dando acesso aos mais diversos saberes através das imagens que continha. 

Das bandeiras dos países às erupções cutâneas na pele decorrentes da varíola, era como se aqueles quatro volumes tivessem me permitido espiar o conhecimento por uma fresta. Nada parecia me surpreender quando cheguei a idade escolar. 

Foi nessa enciclopédia que tive contato pela primeira vez com imagens da fome no continente africano: a foto de uma criança desnutrida que puxava a pele do próprio braço raquítico. 

Descobri com o tempo que aqueles quatro volumes não detinham todo o conhecimento do mundo, mas foram um alicerce onde comecei a construir meu aprendizado. 

Próximo de completar 13 anos ganhei meu primeiro livro, a biografia dos Mamonas Assassinas, que tenho até hoje. Foi meu primeiro livro, em minha primeira feira do livro, evento que com o tempo passou a ter tanto significado em minha vida. 

Desde então cada livro é um tijolo na construção da casa dos meus saberes. Parafraseando o pensamento de Heráclito, entendo que ninguém volta igual depois de se banhar nas páginas de um livro. 

Estes foram os livros que li neste ano.


UM CLICHÊ COM ATRASO: MEU RETROSPECTO DE 2020

A cada virada de ano é comum fazermos um inventário do ano que acabou e projetar algumas metas para o que se inicia. Mesmo os niilistas que nem eu que não tem qualquer entusiasmo com as festas de final de ano costumam fazer alguma reflexão sobre encerramentos e renovação de ciclos, entre outros clichês. 

Pra mim 2020 ia ser uma piada (e até foi). Depois de um ano e meio fazendo stand up sob condições adversas de ambiente e de público, eu idealizei um projeto de uma noite de comédia que foi um sucesso com 34 pagantes e zero reclamações. Digo que foi um sucesso porque o placar “pagantes e reclamações” sempre foi o inverso. 

Eu me lembro bem que quando peguei o dinheiro dos ingressos pensei “consegui pagar um dos microfones que eu comprei pra fazer essa noite, agora falta o outro microfone e o cronômetro”. Não é uma tarefa fácil levantar uma cena de humor longe das capitais, sem nomes conhecidos na comédia e com elenco curto, mas eu estava disposto a enfrentar esse desafio. 

Aí veio a pandemia e o meu projeto ficou em stand by. Tentei produzir algum conteúdo de humor nas redes sociais, escrevi alguns textos, graveis alguns vídeos, mas tudo de forma esporádica e sem nenhuma constância. 

Estudei comédia. Comprei dois cursos de stand up e refiz outro curso que já tinha feito; comprei outros livros de comédia e quadrinhos. Troquei de celular pra gravar alguns vídeos com conteúdo de humor. Não gravei os vídeos, mas tirei bastante foto bonita com o efeito do foco dinâmico. 

Acompanhei todas as lives do ap72 e escrevi para o concurso do instagram. Classifiquei piadas em três oportunidades. Entendi que nem sempre aquilo que a gente mais gosta de escrever é o que funciona. 

O isolamento social me impeliu a introspecção. Decidi começar a ler alguns dos tantos livros que havia comprado ao longo dos anos e procrastinava as leituras. Voltei a tocar o violão que há tempos vivia uma vida de álbum de retratos, que eu resgatava num canto esquecido quando queria tocar alguma lembrança dormida. 

Encontrei inúmeros rascunhos de versos que fui deixando inacabados pelo caminho, resolvi resgatá-los do esquecimento de uma gaveta, onde aguardavam o destino de serem cremados. 

De dois versos rabiscados numa folha com marcas de café derramado pelas bordas de uma xícara escrevi um poema. Escrevi outros por meio da racionalização de alguns processos criativos na organização das ideias. 

Escrevi bastante sobre o meu processo de escrita tentando entender porque escrevia de forma imprevisível. Eu vivia semanas de criações poéticas intensas, em meio a anos que eu não escrevia nada. Botei na cabeça a ideia de fazer um livro de poesia até o final de 2021. 

Entre poemas, piadas e acordes, passei uma música na triagem de um festival depois de sete anos. Foi na Tertúlia de Santa Maria. Foi impossível não lembrar que 17 anos atrás eu desbrava as ruas desta cidade numa das primeiras viagens que fazia sozinho em busca do sonho festivaleiro. 

Fiz um vídeo para convidar as pessoas a acompanharem o festival e aproveitei pra fazer piada com a minha carreira como compositor. Eu me embebedei no dia do festival e fiz piada no grupo do festival, na transmissão ao vivo do youtube e do facebook. Perdi o festival e seis latão de Heineken chamando o Hugo as três da madruga. 

Lembrei do que um amigo compositor me disse muitos anos atrás, de que a música e os festivais são como uma cachaça. Na hora eu pensei “mas eu já tinha até entrado pros Alcóolicos Anônimos”. Alguns dias depois do festival eu estava mandando uma letra pra um amigo compositor. 

Surgiu a oportunidade de participar de uma oficina sobre o processo criativo da canção com dois ícones da música nativista. Acabei sendo o letrista de uma canção coletiva. O processo de criação de letra foi totalmente intelectual, me levando a mesma conclusão que a comédia: nem sempre aquilo que a gente mais gosta de escrever é o que funciona. 

Entre as leituras que fiz durante o isolamento, um livro que trabalha dinâmicas para o desbloqueio da criatividade me levou a reconhecer algumas crenças que acabei introjetando ao meu processo criativo. 

Percebi o quanto tive uma conduta antiprofissional com as obras que tive a responsabilidade de levar ao palco. Embora até hoje eu dê risada e faça piadas do diretor de palco me ligando porque queriam começar o festival e minha música era a primeira concorrente. 

Eu estava tão bêbado que disse pro diretor de palco mandar qualquer concorrente fazer um show de abertura voz e violão enquanto a gente não chegava. Eu esqueci o violão que recém tinha comprado no ginásio na primeira noite do festival. O álcool carregou o resto das lembranças desta Coxilha. 

Encarar todas as lembranças me mostrou o quanto eu vinha encarando as minhas músicas com certo desprezo. Sob certo aspecto, pelo fato de ter começado a passar trabalhos nas triagens na época da faculdade de Direito me levou a crença de que eu não dependia disso pra viver, me levando a nunca ter compromisso com o meu trabalho poético e musical. 

Fiz um levantamento e constatei que no período de cinco anos, entre 2005 e 2010, gravei seis canções. Destas apenas uma permanece inédita. Tenho ainda pouco mais de uma dúzia de músicas que comecei a gravar e nunca terminei ou nem comecei as gravações. 

Revisitei melodias e harmonias que estavam engavetadas nas memórias mais remotas. Decidi então trabalhar em um planejamento para o registro de todas estas obras, através de um processo racionalizado de gravações por meio de um cronograma. 

Além do registro destas obras, pretendo definitivamente aceitar o meu trabalho como poeta, trabalhando o meu processo criativo de forma racional. Por isso estou desenvolvendo um projeto para as redes sociais onde pretendo compartilhar ferramentas de escrita poética, exercícios de escrita e de desbloqueio criativo.

Das travessias intrínsecas

Lembro que eu devia ter por volta de dez anos, estava jogando bola na frente de casa quando ouvi o burburinho de que meu irmão tinha sido at...