segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

DO TOBA


Eram seis e meia da manhã quando Maria Cecília, mais conhecida no bairro como Cidinha manicure, foi acordada pelo filho, ladeado por dois policiais militares:

-O que aconteceu de errado, meu filho?!
-Eu vim cobrar o PlayStation que a senhora me prometeu.
-Que brincadeira boba é essa meu filho?! São seus amigos disfarçados de policial?! É uma trolagem praquele seu canal no YouTube?!
- Não, mãe. Eu vim cobrar o PlayStation que a senhora sempre me prometeu.
- Meu filho, você pede esse PlayStation desde que tinha dez anos e eu sempre digo só se eu tirar do toba.
-Por isso a Polícia Federal! Acabei de saber do trabalho que eles fizeram com um senador, tiraram praticamente um uno zero quilômetro do toba dele. Um PlayStation vai ser fácil.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

JÁ FUI ROTEIRISTA DO CHAPOLIN, SABIA?!

Já fui roteirista e ator de um remake do Chapolin, já contei pra vocês?!

Isso foi na oitava série no colégio Cecília Meireles, aula de português da professora Palmira. Acho que pra não ter que ver aquele monte de moleque da escola pública de novo no outro ano falando “pobrema” e tauba”, a professora pediu pra turma se dividir em grupos e ensaiarem uma peça para apresentar em aula.

Pois bem, grupos divididos, sobraram apenas eu e um amigo, que era também meu vizinho, e fazia uns três anos que caímos sempre na mesma turma no colégio, de forma que ficamos sem grupo, muito provavelmente, por causa dos nossos antecedentes na escola.

Porém, para a professora mais importante que a peça em si, era a mensagem que a peça deveria passar, então tinha grupo que ia falar de gravidez na adolescência; tinha outro grupo que abordava preconceito com relação a casais inter-raciais, com beijo técnico e tudo.

Como nenhum grupo se dispôs a nos aceitar nem como atores coadjuvantes e a gente precisava da nota pra terminar o primeiro grau (era assim que chamava na época), começamos a pensar que peça apresentar com apenas dois personagens. E naquele verdadeiro brainstorm chegamos a nossa referência de dramaturgia: o programa do Chaves e do Chapolin.

Lembramos de uma esquete protagonizada pelo Ramón Valvés (Seu Madruga) e Carlos Villagrán (Quico), onde Valdés interpreta um mendigo com uma placa escrito CEGO. Villagrán faz o papel do benfeitor que vai dar uma esmola.

Antes de dar o dinheiro, o personagem diz que vai dar um determinado valor, ao que o suposto cego reclama que a nota é de valor menor. O doador questiona “Você não é cego?”, ao que o mendigo vira a placa que do outro lado diz SURDO.

Indignado o benfeitor interpretado por Carlos Villagrán contesta “Como surdo se está conversando comigo?”. Então o mendigo, interpretado por Ramón Valvés, responde “Surdo é o rapaz que fez o cartaz, eu sou analfabeto, não sei o que está escrito”.

Então o suposto mendigo, que era na verdade um verdadeiro 171, começa a contar um maço de notas antes de sair de cena e o doador então tenta se passar por mendigo. Enfim, esse é o resumo da esquete.

Os outros grupos já estavam ensaiando há algumas semanas, enquanto a gente teve a ideia na véspera do dia da apresentação. Então eu assumi o papel de roteirista e fui de tarde depois da aula pro escritório do meu pai pra usar o computador pra escrever os diálogos da peça.

Fiz também um cartaz com as palavras CEGO/SURDO, uma em cada lado, plastifiquei com durex e usai uma cordinha de óculo para segurar no pescoço. Não precisei me vestir de mendigo porque na oitava série naturalmente a gente já se veste que nem um desabrigado.

No outro dia ensaiamos algumas vezes os diálogos e a cena em si, como ninguém tinha coragem de começar, nos oferecemos para sermos os primeiros a se apresentar. A professora ficou entusiasmada, achou que a gente estivesse interessado, mas a gente só queria se livrar daquilo.

Eu fiz o papel do mendigo e terminava a minha participação na peça saindo pela porta e ficava o meu amigo fazendo o final da cena. Dou um tempo, quando eu volto a professora tá perguntando pro meu colega qual era a mensagem da nossa apresentação, sem titubear ele responde “Não dê dinheiro a mendigos, eles são muito mentirosos”

E foi assim que a peça, protagonizada pelos dois primeiros nomes que a diretora sempre falava quando ia na nossa sala de aula, foi a única nota dez.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

GOSTA DE MORANGO?


Eu estava comendo morangos, naquela loteria de escolher aleatoriamente entre um que podia ser muito doce ou muito azedo. Fiquei me questionando porque eu considerava morango uma das minhas frutas preferidas, afinal de contas não é das frutas mais saborosas.

Se não está no sabor, onde estará a âncora afetiva que me faz gostar de morangos? Lembrei que minha avó tinha alguns pés de morango na casa da vila. Lembro-me apenas dos frutos ainda verdes, jamais consegui conhecê-los maduros ou saber seu sabor. A voracidade dos meus primos sempre chegou antes de mim naqueles canteiros.

Porém a história com morangos que me marcou, ainda na infância, não é nem minha, foi uma notícia no jornal. Um fato inusitado sobre uma moça que havia dado entrada no hospital com um morango na cavidade vaginal. Na época, eu era criança, mas sabia o que era um morango e onde ele estava, o caminho que ele fez até chegar lá é que era motivo de curiosidade pra mim.

Porque eu era criança tudo que conseguia pensar era naquela brincadeira de jogar o amendoim pro alto pra pegar com a boca. Na minha cabeça de criança a guria tava brincando disso pelada e o morango foi parar na xereca.

Com o tempo fui entendendo melhor da vida e da acidez das frutas cítricas. Porém, mesmo entendendo o contexto, sempre achei essa situação muito engraçada. Eu fico imaginando como os namorados combinaram:

-Amor, qual a sua fruta preferida?
-Abacaxi.
-Cheguei a ficar arrepiada aqui. Não, nada muito ácido ou cítrico, diz outra.
-Pera.
-Não.
-Uva
-Não.
-Salada mista.
-Tem que ser uma fruta que encaixa direitinho nos lábios, se é que você me entende
-Butiá.
-Você não entende as coisas mesmo, né Norberto?! Só me diz uma coisa, gosta de morango?
-Com leite condensado eu gosto.
-Leite condensado lambuza muito, gosta de chantilly?
-Bela Gil, é você?! Que receita é essa?
-Fica tranquilo, vou te levar a loucura!

Corta cena o casal de namorados no motel, chantilly e morango preparado, está lá o namorado tentando catar o morango com a boca, quando levanta a cabeça com aquela cara de zagueiro que errou o bote e fez gol contra:

-Mônica, perdi o morango!
-Como assim, Norberto, perdeu o morango?!
-Sei lá, Mônica. Você exagerou no chantilly.
-Você perdeu o morango dentro de mim, Norberto?!
-Eu te falei que a minha fruta preferida era maçã, não correríamos esse risco.
-Ah! Sim, eu ia ficar no motel parecendo um leitão à pururuca. Perereca à pururuca.

Norberto se dirige ao telefone:

-Vai ligar pra onde?
-Pra recepção, pedir ajuda. Isso já deve ter acontecido antes.
-Ah! Sim, quem sabe eles não mandam um funcionário com aquele negócio de tirar bicho da piscina pra ajudar. Estamos num motel, seu animal. Vamos pro hospital.
-A gente a recém chegou no motel, vamos perder a pernoite.
-Quem sabe então a gente não aproveita que já tô com chantilly e morango na xavasca, eu jogo pó de café, danço um funk e a gente vende como buceccino, um café de sabor e odor forte.

Enfim, sempre viajo nessa história cada vez que tenho que preencher essas fichas de atendimento médico de emergência. Se perguntar aqui minha fruta preferida vou dizer que é bergamota.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Capivaras e cupinxas


Depois de alguns meses pelos banhados do Rio Grande do Sul, uma família de capivaras volta para sua casa em terras curitibanas.

Logo na chegada, a capivara fêmea ao ser indagada sobre a viagem respondeu:
-São uns selvagens lá no Rio Grande do Sul. Eles se chamam de cupinxas, dá pra acreditar?! Cupinxas.

A capivara filho intervém:
-É capincho, mãe! O nome social deles é capincho.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

QUASE FURANDO A QUARENTENA


Isadora, em isolamento social desde o começo da pandemia, confessa por vídeo chamada para amiga Débora:
-Aí, Dé, cansei do Ariovaldo...
-Quem é Ariovaldo, Isa?
-Meu vibrador. Fez tanta hora extra nessa pandemia que se for embora e entrar com uma ação, penhora meu apartamento.
-Não é pra tanto, amiga.
-Não é pra tanto?! Xereca de escorpiana amiga, não sossega o fogo assim tão fácil não. Dois pares de pilha por semana, já tava dizendo pro entregador do mercado que era pro rádio AM do meu avô.
-HAHAHAHA
-Mas decidi amiga, vou furar a quarentena. Ou melhor, furar na quarentena.
-Com quem?
-O Roberto.
-O Beto do HB20 branco?
-Isso. A gente se pegou uma vez, ficou aquele gostinho de quero mais. Vou tirar a leoa da jaula, falando nisso tenho que dar um tapa da juba. É isso ou a mandioca descascada da geladeira que já estou olhando com outros olhos. Vou lá que preciso garantir todos os protocolos de segurança.

Mais tarde, em meio a troca quente de nudes, repleto de promessas do que fariam quando se encontrassem daqui alguns dias, Isadora indaga a Roberto:
-Ai, Beto, quero fazer todas essas loucuras contigo, só tô preocupada com a nossa segurança. Vamos precisar seguir os protocolos de segurança.
-Pode ficar tranquila, gata. Comigo é segurança total, tô fortalecido contra esse vírus que já fiz o tratamento precoce. Meu irmão mesmo teve e melhorou com esses remédios.

Neste momento o tesão de Isadora despenca. Buscando uma saída para essa situação, entra no clima e responde:
-É, esse pessoal condena os remédios sem se dar conta do bem que fazem. Eu mesmo me tratei pra HIV com vermífugo, estou bem e vendendo saúde.

Aguardou alguns instantes até ver desaparecer a foto de Beto no perfil do whatsapp e pensar “missão cumprida”. E rumou para a cozinha pensando em ensopado de mandioca.

Das travessias intrínsecas

Lembro que eu devia ter por volta de dez anos, estava jogando bola na frente de casa quando ouvi o burburinho de que meu irmão tinha sido at...