quinta-feira, 25 de novembro de 2021

LEITE NÃO DERRAMADO

Nos primeiros meses nenhum dos amigos que estavam presentes no fatídico dia no Bordel da Adelaide tocava no assunto, com receio do Osvaldinho se sentir constrangido. Mas sabe como são os amigos, não demorou para que Esteves, testemunha ocular da história, começasse a fazer piada com a situação.

Na primeira vez que Esteves contou a história, apenas entre os presentes no bordel, Osvaldinho rezingava e balançava a cabeça. Da segunda vez em diante, não querendo deixar os lapsos de memória do Esteves estragar as viradas da história, Osvaldinho passou a aparar as arestas da narrativa que não eram fieis aos fatos.

Mas foi num churrasco, depois do futebol com outros amigos que não estavam presentes, que Osvaldinho assumiu a redação final da história. Enquanto Esteves se perdia em descrições poéticas e acessos de tosse, ele bateu no ombro do amigo e tomou a frente como contador do causo.

A partir daí, Osvaldinho recapitulou o que já havia sido contado pelo amigo, de que ele estava deprimido desde que a mulher havia o abandonado (ela tinha fugido com o atirador de facas do circo). Depois de duas semanas trancado em casa, Esteves foi visitá-lo com a ideia fixa de convencê-lo a irem no Bordel da Adelaide com mais alguns amigos.

No começo Osvaldo foi renitente à ideia, mas Esteves era conhecido por além de ser poético, ser bastante persuasivo quando o assunto era convencer alguém para cair numa noite de farra sem arrependimentos. Não que não existissem arrependimentos das noites de farra, o que costumava não existir eram muitas lembranças destas noites de farra para se arrepender.

Porém, para azar de Osvaldinho e sorte das histórias engraçadas, Esteves jamais se esqueceu da cena de Osvaldinho chorando nos braços da garota de programa. No caminho de volta pra casa Osvaldinho ia em silêncio, enquanto os amigos com ar de deboche perguntavam se ele tinha começado a chorar quando ela disse o valor do programa.

Foi só depois da primeira vez que Esteves tocou no assunto, um tempo depois do acontecido, que Osvaldinho contou que começou a chorar depois que tirou a roupa e a garota de programa fez uma expressão igual à que sua ex mulher fazia quando ele tirava a cueca (só faltou comentar “que ele podia lavar as roupas íntimas no banho”).

Quando todos olhavam para Osvaldinho com o rosto compadecido pelo tom dramático desta parte da história, ele faz uma breve pausa olhando nos olhos de cada um e encerra dizendo:


-Mas o mais triste dessa história é que quando o Esteves chegou no quarto, minhas lágrimas caiam sobre o meu pau e ele disse que não era o momento de chorar sobre o leite derramado.

@oantonioguadalupe

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

PATO ASSADO COM LAMBORGHINI

O começo em qualquer profissão não é fácil e com a advocacia não é diferente. Antes de montar o meu escritório e ter liberdade para trabalhar (ou evitar a fadiga como diria o Jaiminho carteiro), tive que me sujeitar a trabalhar para outros escritórios.

O primeiro escritório que eu trabalhei era um ambiente alegre e descontraído. Foi uma experiência de muito aprendizado, mesmo assim não completei um ano de trabalho lá, acabei saindo em busca de outras oportunidades na capital.

No escritório que trabalhei logo em seguida, embora pagasse melhor, meu trabalho consistia em saber fazer cópia e cola de petições com adaptações para o caso concreto. Não fiquei nem uma semana lá, mas entendi porque perguntaram se eu gostava de montar quebra cabeça na entrevista de emprego.

De volta a Pelotas, trabalhei noutro escritório, experiência que durou alguns poucos meses. Neste período de trabalho entendi o que Zeca Baleiro queria dizer ao cantar que despediu o seu patrão porque ele roubava o que ele mais valia...

É uma falsidade integrar a equipe de um escritório como um advogado associado quando te exigem exclusividade. No contrato de trabalho te concedem liberdade de atuação, mas querem que essa liberdade seja exercida apenas para os clientes do escritório. Uma liberdade profissional semelhante à de um cachorro preso pela corrente no vai e vem.

Embora não tenha ficado muito tempo, neste escritório cheguei a participar da festa de final de ano, onde fui presenteado com um vale compras de 200 reais na Lojas Krause. Foi a única vez que comprei alguma coisa lá, além do vale presente precisei completar com mais 300 reais para comprar o tênis mais barato da loja.

Neste escritório houveram dois episódios que me deixaram claro que receber ordens não era o meu forte. A primeira foi uma vez que eu tinha uma audiência em Bagé, o sócio do escritório, disse que eu poderia escolher se eu iria para audiência com o meu carro, de ônibus ou ainda com o carro da empresa.

O problema era que a empresa exigia que eu fosse com o carro deles, um fiat uno, e o motivo: tinha um material de obra para levar para a outra cidade. Fiquei indignado de me usarem para fazer frete para a empresa, isso era uma afronta com a minha dignidade profissional e acima de tudo, acúmulo de função.

Mas a gota d’água pra mim foi quando um dia, no final do expediente, aparece o sócio do escritório, feliz da vida com o seu iphone de última geração na mão pra mostrar pra mim e outro colega um vídeo no youtube.

No vídeo em questão um desocupado com muito dinheiro teve a “brilhante” ideia de assar um pato com o fogo que sai do escapamento de uma Lamborghini. Então durante alguns minutos, que pra mim pareciam uma eternidade, eu tinha que assistir ao vídeo e fingir interesse, afinal, era o meu chefe.

Pra ser sincero quando ele entrou feliz da sala falando que haviam assado um pato com uma Lamborghini eu pensava “não sabia que a Lamborghini fazia forno, deve tá querendo concorrer com a Yamaha que faz teclados e motos.”

Quando me dei conta do que se tratava, eu pensava enquanto o vídeo rodava: “O que eu tô fazendo da minha vida? Esse cara feliz que tem um imbecil assando um pato com um carro de um milhão de reais é o meu chefe. Essa é a pessoa que paga o meu salário todo mês. Ou seja, se eu trabalhar duro durante muitos anos posso realizar o sonho desse idiota de assar um pato numa Lamborghini.”

Neste momento eu me dei conta que pra mim não dava mais para continuar lá, precisava pedir demissão. Estava decidido, esperaria alguns dias pra não dar na cara que o motivo era o vídeo e pediria as contas.

Depois de rodar o vídeo, sem desfazer o sorriso de felicidade do rosto ele perguntou pra mim e pro outro colega o que tínhamos achado. O outro cara gostava de carro e falou alguma coisa de cavalos de potência, ou qualquer coisa do tipo. Quando ambos me olharam, esperando minha resposta tudo que consegui pensar foi:

-É a air fryer mais cara do mundo!

@oantonioguadalupe

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

ESTAVA ESCRITO NAS CARTAS

Maurinho percebeu um clima tenso ao chegar em casa de mais um dia de trabalho. Em cinco anos de casamento, era a primeira vez que Isadora não o recebia na porta, de forma efusiva, com um beijo. Pelo contrário, permaneceu junto a porta da cozinha com as mãos na cintura parecendo um totem.

 

Durante alguns instantes, enquanto caminhava em direção a esposa, Maurinho se questionava se havia esquecido do aniversário de Isadora, ou alguma outra dada importante da relação, tentando entender como ele poderia ter dado causa ao comportamento esquivo dela.

 

Isadora, sem tirar as mãos da cintura, desviou o rosto do beijo que Maurinho tentou lhe dar depois de caminhar em sua direção. Sem entender a atitude, até por ter certeza que não havia esquecido de nenhuma data nos últimos seis meses (Isadora havia registrado todas as datas importantes para o casal na agenda do telefone dele), questionou:

 

-O que aconteceu? Fiz alguma coisa pra ser recebido deste jeito?

-Pois me diga você, Maurinho, fez alguma coisa pra ser recebido deste jeito?? -devolveu Isadora, sem tirar as mãos da cintura-

 

Maurinho recuou com a expressão pensativa, interrogando a si mesmo sobre cada acontecimento do dia procurando uma pista do que poderia ter motivado essa recepção de Isadora. Sem fazer ideia, decide blefar:

 

-Desculpa, amor. Não respondi a sua última mensagem dizendo que me amava. Hoje foi corrido no trabalho, visualizei e acabei esquecendo de responder. Me perdoa?!

-Você acha que estou assim por causa de uma mensagem não respondida, Maurinho? -replica Isadora de forma exultante-

-Então o que aconteceu hoje depois que sai pra trabalhar pra você ficar deste jeito?

-Eu fui na cartomante, Maurinho!

-Você, só pode estar de sacanagem comigo Isadora! Cartomante?! O que ela disse, que eu tenho outra?

-Exatamente! Seu cafajeste!!

-Isadora, isso é tudo charlatanismo. Essa gente é especialista na psique humana. Ela percebe o que a pessoa tem medo de ser traída, aí ela usa isso pra enganar as pessoas com as cartas. Pode ver que a mesma carta tem um significado diferente pra cada pessoa. Garanto que ela te falou que tinha traição quando saiu a carta do enforcado.

-E foi mesmo. Ela disse que o enforcado significava traição.

-Estou dizendo Isadora. Essa carta do enforcado é o coringa da desgraça. Pra mim a cartomante disse que o enforcado significava que eu ia ficar desempregado.

-Ela não errou, na outra semana o seu chefe te mandou embora!

-Coincidência, Isadora. Minha despedida foi consequência da crise na economia, só entrei pras estatísticas como milhões de brasileiros. Ela viu que eu não estava inseguro com meu casamento, então jogou um verde com a minha vida profissional.

-Ela nunca errou... -disse Isadora hesitante-

-Não deixa uma charlatã estragar o nosso casamento.

 

Isadora abraçou Maurinho e prometeu não levar à sério o que ouviu à tarde da cartomante afamada por nunca errar uma previsão...

 

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De madrugada no celular de Madame Giselle chega uma mensagem de Maurinho: “Ela sabe, não podemos nos ver mais!”...

 

@oantonioguadalupe

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

NOS GRUPOS, NA SAÚDE, NA DOENÇA



Domingo a noite o grupo de WhatsApp “FUTEBOL DE QUARTA ⚽️🍻🥩” recebeu uma mensagem de Augusto, quase com o tom solene de um comunicado:

Augusto:

_Renato, preciso que você adicione uma pessoa importante ao grupo!_

Renato:

_Quem??_

Augusto:

_A minha esposa!_

Leonel:

_Tá de brincadeira, Augusto?_

Renato:

_Já não basta ela de leão de chácara toda semana no dia do jogo_

Leonel:

_É a única esposa que vai em todos os jogos, fica até na hora do churrasquinho e da cerveja._

Renato:

_Pois é, já basta na quadra que a gente teve que parar de falar de put4ria e diminuir os palavrões pra não ofender os ouvidos cristãos da Cláudia._

Augusto:

_Gente, sem brincadeira, preciso que adicione ela por questões judiciais?_

Renato:

_Que papo judicial é esse que tua mulher tem que fazer parte do grupo? Já disse que só adiciono tua mulher no grupo se ela entrar em campo e marcar dois gols. Não vem com teus truques, Augusto._

Augusto:

_Dessa vez é verdade, Renato. Ela entrou na justiça e conseguiu uma liminar que garante a ela o direito de ser adicionada a todos os grupos de WhatsApp que eu faço parte, só ficam de fora os grupos do trabalho._

Leonel:

_Vamos assinar tua carteira então, assim o grupo passa a ser de trabalho!!!_

Renato:

_hahahahahahaha, essa foi boa, Leonel_

Augusto:

_Adiciona, Renato. Se não adicionar o japonês da federal vai te levar a intimação as seis da manhã com o mandado liminar do juiz._

Renato:

_Vou correr esse risco, Augusto. Na quadra, pelo menos, vou ver tua mulher só uma vez na semana, no grupo terei um pacote ilimitado de Cláudia._

No outro dia pela manhã Renato recebe uma intimação do oficial de justiça que ordenava que Cláudia, esposa de Augusto tinha o direito de participar de todos os grupos de WhatsApp do marido.

Aos poucos o grupo foi parando, começaram as desculpas dos colegas de que não poderiam jogar naquela semana e Augusto nunca mais jogou futebol com os colegas.

Enquanto isso, num grupo sem o Augusto, toda semana marcam futebol em outro dia da semana e em outra quadra, do outro lado da cidade, para não correrem o risco de serem flagrados.

@oantonioguadalupe

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

MESMO DEPOIS DA MORTE, O SHOW PRECISA CONTINUAR


Os responsáveis que controlam a programação dos canais de televisão já entenderam que há uma mórbida curiosidade no ser humano que faz com que ele diminua a velocidade do carro ao passar por um acidente.

E é buscando satisfazer essa curiosidade mórbida que os programas de televisão têm uma forma especial de explorar a dor de uma tragédia, para transformá-la num espetáculo que mantenha os telespectadores com os olhos fixos na tela.

Desta forma, são chamados especialistas em engenharia aerodinâmica para dar explicações técnicas que não passam de meros palpites sobre um acidente aéreo; familiares são emparedados por microfones, sem qualquer respeito a dor do luto.

Antevejo que em breve os programas dominicais adotarão uma visão espiritualista diante de alguma tragédia que se abata sobre algum artista de grande apelo popular e resolva levar um médium espírita de grande badalação para o palco do programa para tentar contato com o artista recém desencarnado.

Consigo imaginar o diálogo entre o(a) apresentador(a) e o média, que seriam mais ou menos assim:

-Estamos todos consternados diante dessa tragédia. Assim como muitos fãs estamos com saudade, por isso trouxemos um médium que vai tentar contato com a nossa saudosa artista que nos deixou faz dois dias em um acidente aéreo.

-Pois bem -tenta explicar o médium-, ocorre que o desencarne dela é recente. Conforme explica a doutrina espírita, logo após a morte o espírita fica em estado de perturbação e nestes casos de acidente de avião e de carro, esse período de perturbação costuma ser um pouco maior.

-Entendo, então pelo acidente ser recente não vamos conseguir contado com nossa artista tão amado por todo o Brasil?!

-Exatamente, deve levar algum tempo até o espírito dela recobrar a consciência.

-Mas sr. médium e se a gente tentasse contato com alguém que morreu há um pouco mais de tempo? Pra ver se alguém avista ela no mundo espiritual. Tem aquele artista que gravou uma participação no disco dela, que morreu tem uns três anos, de repente ele pode nos informar se avistou ela depois do acidente...

@oantonioguadalupe

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

ELES, OS BÁRBAROS PELOTENSES!

Sempre fui um pelotense muito orgulhoso da história cultural de Pelotas, do tipo que repetia a explicação que ouvi numa palestra do professor Mario Osório sobre o motivo das companhias de teatro se apresentarem duas vezes na cidade e apenas uma na capital.

Tinha decorado o discurso de que devido à prosperidade socioeconômica dos tempos das charqueadas, a cidade passou a se tornar polo cultural da arte e da erudição, através da criação de sociedades literárias, companhias dramáticas e saraus, o que a levou a ser reconhecida como “Atenas do Sul”.

Falava sempre com muito entusiasmo dos expoentes da cultura pelotense, como Lobo da Costa, João Simões Lopes Neto e Yolanda Pereira, a primeira brasileira a conquistar o título de Miss Universo em 1930.

Mas confesso que eu só era entusiasta desse discurso fora de Pelotas. Sempre que estava em viagem noutra cidade e perguntavam de onde eu era respondia tudo isso orgulhoso.

Porém, quando por algum motivo alguém vinha visitar a cidade, nunca me senti à vontade de repetir toda história de opulência cultural da Atenas do Sul, visto que as pessoas que ouviam essa história poderiam testemunhar em qualquer esquina uma camionete depositar um saco de lixo na calçada e um carro de luxo passar sem parar para os pedestres na faixa de segurança.

Receoso das perguntas que poderiam advir desta incongruência visível a olho nu, com o tempo fui bolando o meu próprio revisionismo histórico que explicasse a queda nos costumes da elite pelotense.

Foi assim que comecei a explicar, antes mesmo de qualquer pergunta, que no final do século XIX, Pelotas sofreu com diversas invasões bárbaras, sendo que a cidade foi tomada por vikings que a invadiram através do porto de Rio Grande.

Finalizo sempre dizendo que esta é uma parte da história pouco comentada, o povo pelotense tem vergonha de admitir que foi invadido por Rio Grande...

@oantonioguadalupe

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

UM DIA DEPOIS DO HALLOWEEN

Cíntia acorda ainda atordoada por causa da bebida, a festa de Halloween do Condomínio tinha sido bem animada. Ela e o marido se divertiram como há muito tempo não se divertiam depois que se casaram 11 anos atrás.

Adalberto acorda com o grito de susto da mulher no banheiro. Ao abrir a porta se depara com a imagem da mulher, sem calcinha diante de um daqueles espelhos de fazer sobrancelha:

-O que aconteceu, meu amor? Você me assustou com esse grito.

-Olha isso Adalberto! – fala Cíntia, sarrando o ar, apontando para as partes íntimas–

-Olhar o que? – pergunta Adalberto, não muito bem acordado –

-Isso Adalberto! Minha periquita está azul! O que aconteceu nesta festa de Halloween?! Fui convidada pra fazer uma propaganda erótica da tim?! Só falta ter tatuado “viver sem fronteiras” no toba.

-Agora percebi... – diz Adalberto, tirando ramela dos olhos – Parece a Smurfette!

-Sem piadas infames com a minha xavasc4, Adalberto. Preciso ir ao meu ginecologista, isso pode ser grave.

-Claro que é grave, Cíntia. Se tua chana tá azul é sinal de que torce pro grêmio. Se vai pra zona não volta mais.

-Piada de futebol com a minha buc3t4, Adalberto?! Chana da zona é aquela tamanca de beiço que a tua mãe tem.

-Perdão, foi mais forte do que eu. Mas o que aconteceu de diferente ontem a noite na festa? Será que foi algo que você comeu ou bebeu?

-Eu não comi nada diferente e só tomei caipira de limão, não gosto destas bebidas doces.

-Lembro que a caipirinha te deixou bem alegre.

-Tá me julgando por um pilequinho, Adalberto?

-Não, é que falando em coisas diferentes, ontem, depois da festa de Halloween... A gente transou como há muito tempo não transava.

-Eu lembro disso, mas o que tem a ver com a minha x3r3ca tá azul?! Vai dizer que ela é tipo aqueles maços de dinheiro que explode tinta em filme de assalto a banco?! Se tu consegue encontrar meu ponto G numa noite de festa e bebedeira minha periquita fica azul?!

-É, pra ela estar azul não tenho explicação. Já me vesti, eu te levo ao médico.

-Espero que não seja nada grave. E a sua azia Adalberto, passou?

-Melhorou depois que tomei um antiácido. Sempre fico assim quando como muito doce, abusei dos pirulitos pinta língua ontem na festa de Halloween...


@oantonioguadalupe

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

CARTA À INFÂNCIA

Sempre que se faz uma cápsula do tempo se escreve falando de um presente já passado para um incerto futuro. Então me parei a pensar em como seria uma cápsula do tempo ao contrário, se eu pudesse escrever para mim mesmo uns trintas anos pra trás em minha própria cronologia. Desta ideia nasceu isso:

 

Oi Nenê!

 

Eu sei que tu odeia esse apelido, mas te acostuma que ele vai te acompanhar pelo resto da vida. Até hoje me arrependo de não ter aceitado aquela ideia tua de botar o tico pra fora e gritar “Tá aqui o nenê” quando alguém nos chamasse de nenê. Não ia resolver, mas teríamos uma história muito boa pra contar.

 

Vou começar te contando as partes ruins, aquele teu sonho de ser jogador de futebol, mais especificamente de ser goleiro artilheiro não foi realizado. Rogério Ceni realizou esse teu sonho, vais fazer muito piada com ele.

 

Ah! Falando em piada, sabe aqueles comentários sarcásticos?! Acho que tu ainda não sabe o que é sarcasmo. Sabe aquelas gracinhas que tu fala de vez em quando e todo mundo na aula ri?! Pois é, vais fazer isso muito na faculdade.

 

Sim, faculdade. Tu lembra daquele trabalho de sala de aula que era lido um texto e depois os alunos tinham que fazer uma audiência simulada e escolheste ser de advogado de alguém?! Pois é, eu não lembro bem como era, nem tu já que perdeu o caso por falta de estudo, mas enfim, a gente fez a faculdade de direito.

 

Tudo isso só foi possível por conta dessa paixão por ler e escrever. Não quero dizer nada, mas tenho pra mim que tudo que a gente fez na vida é graças a isso.

 

Ah! Sabe aquele sonho que tinhas cada vez que pegava um disco e via o nome dos compositores?! Pois então, tu te tornou compositor e teve algumas músicas registradas em discos.

 

Sabe aquela paixão que tens pelo violão que tem na casa da mãe da tia Bete, que não era tua tia, portanto a mãe dela não era tua vó?! Essa paixão vai falar mais forte e o violão se tornou parte importante da nossa vida.

 

Aquele sonho de escrever um livro ainda não foi alcançado, mas já tivemos a oportunidade de participar de alguns livros com nossas palavras. Então, mesmo que não tenhamos realizado esse sonho, posso dizer que praticamente tudo que alcançamos foi através da leitura e da escrita.

 


Voltando, sabe aqueles comentários inesperadas e engraçados que costumas fazer?! Vais fazer isso no palco e também no rádio. Só não te empolga que o rádio já não é isso tudo, perdeu muito espaço pra internet.

 

Vixe, não sei como te explicar o que é internet, mas enfim, vai tudo dar certo.

quinta-feira, 22 de julho de 2021

O ADVOGADO DO DIABO E O CASO JORGE DA CAPADOCIA

Antes mesmo de cursar a faculdade de direito, o termo “advogado do diabo” aguçava a minha curiosidade, provavelmente estimulado pelo filme de mesmo nome, onde Keanu Reeves era o jovem e ambicioso advogado que trabalhou para o diabo, interpretado por Al Pacino.

Atualmente, o termo se refere a pessoa que defende pontos de vista com os quais não compactua, ou mesmo, pontos de vista moralmente indefensáveis. A origem do termo, porém, remonta a função exercida no processo de canonização. O santo ofício de advogado do diabo, foi instituído em 1587 e extinto em 1983.

No processo de canonização havia o "promotor da fé" e o "advogado do diabo", ambos os papéis desempenhados por advogados designados pela própria igreja. Ao promotor da fé cabia a defesa da canonização do candidato a santo; ao advogado do diabo, impedi-la, através de falhas nas provas dos milagres atribuídos ao candidato.

De posse dessa informação, foi então que a minha imaginação disse: eu consigo imaginar esse processo de uma maneira bem engraçada, olha só. Então, agora imagina o saguão de um foro, advogados aguardando para serem chamados, quando a servidora chama:

-Processo de canonização 23/4: caso Jorge da Capadócia!!

Primeiro entra o promotor da fé, seguido pelo advogado do diabo. Diante de ambos, o juiz inicia com a formalidades do processo de canonização, antes de passar a palavra para o promotor de fé que começa a sua defesa pela canonização:

-Excelência, estamos diante de um digno santo, a fé popular consagrou a sua santidade, ele morreu por sua fé.

-Protesto! -exclamou o advogado do diabo- Este é um processo de canonização, popularidade é pra BBB, a Fazenda. Estamos aqui para falar de milagres.

-Falarei do milagre, caro colega -rebateu o promotor da fé-, mas julgo necessário falar antes que Jorge foi perseguido, preso e ameaçado, tudo isso com o objetivo de fazê-lo renunciar ao seu amor por Jesus Cristo.

-Se renunciar à própria vida e acabar sendo martirizado se tornar critério pra canonização, em breve vamos estar fazendo o processo da Joana Darc.

-Pois fique sabendo que existia um dragão que oprimia o povo, eram dados animais e, às vezes, jovens a esse dragão. Um dia a filha do rei foi sorteada, foi quando Jorge apareceu para enfrentar o dragão. Fez o sinal da cruz e, ao combater o dragão, venceu-o com uma lança.

Com um ar de vitorioso o promotor da fé observa a fisionomia do juiz, que parece concordar. Sem se abalar o advogado do diabo reage:

-Salvou a princesa e matou o dragão, isso é o Mario Broz ao contrário. Essa história de dragão é apenas uma lenda que o pessoal conta faz anos.

Com ar indignado o promotor da fé rebate:

-Não deboches, nobre colega. Jorge foi o maior matador de dragões de todos os tempos.

-Dragões não existem! -repete o advogado do diabo, indignado-

-Exatamente porque Jorge é o maior caçador de todos os tempos! Dragão era uma praga aqui na região, que nem Javali. Era uma época boa, não tinha IBAMA pra reclamar que o Jorge tava matando muito dragão, ia desequilibrar a fauna. Então depois que ele matou o primeiro, ele pegou gosto e seguiu matando os outros. E não pense que ele cobrou, foi tudo trabalho voluntário. Eu dizia pra ele, fica fazendo esse trabalho de graça, não assina carteira, não recolhe uma previdência, depois não consegue se aposentar e não vão reconhecer o santo trabalho de matar dragão que estás fazendo.

-Protesto, excelência, não temos qualquer prova da existência de dragões.

No fim da história, o debate se estendeu e apesar de não ter provas o juiz, que era o Papa Gelasio I justificou o processo declarando-o entre aqueles “cujos nomes são reverenciados pelos homens com justiça, mas cujos atos são conhecidos apenas de Deus”, que era a maneira na época de dizer: não tenho prova, mas tenho convicção.

@oantonioguadalupe

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Tutorial: explicando piada para uma lacradora

Faz tempo que não faço postagem, mas como surgiu a oportunidade de fazer um tutorial para explicar uma piada para alguém que tem sede de lacração, vamos lá.

Uma página no facebook fez a seguinte postagem:

Pra mim essa postagem é surreal em vários sentidos, se é que dá pra falar que isso faz algum sentido.

Então escrevi nos comentários a seguinte piada:


A premissa da piada é a frase "o Brasil não é para amadores", que seguida de duas hipérboles (exagero) ganha distorção cômica ao estabelecer esse aparente paradoxo entre o nível de série D do campeonato brasileiro e salário de Liga dos Campeões.

É uma piada simples, mas teve um Alecrim Lacrado que numa clara incapacidade de interpretar texto fez o seguinte comentário:

Pois o Alecrim Lacrado pegou a expressão "os profissionais" da piada de forma genérica e fora de contexto para lacrar dizendo um monte de obviedade como se estivesse dando um choque de realidade em alguém. 

Pois este ser de luz, deusa suprema do despertar para a realidade, acredita que se não fosse seu comentário ninguém no mundo saberia que esta não é a realidade de todos os profissionais, mas apenas de alguns e que para a maioria dos profissionais brasileiros a realidade é ao contrário. 

Nossa, se não fosse o raio de sabedoria desse ser de luz eu permaneceria preso nas trevas da ignorância (contém ironia).

A argumentação é tão tosca que preciso usar um exemplo pra mostrar o quanto essa lacração não passa de incapacidade de interpretar um texto.

Vamos fazer um exercício imaginativo e pensar numa reportagem de um chefe de estado que interfere na PF para proteger os filhos. Se alguém fizer um comentário irônico do tipo "todo pai protege as suas crias" o Alecrim Lacrado vai aparecer para dizer que nem todos os pais porquê há crianças que não tem pai reconhecido, tem os pais como o Nardoni e pipopó...

Como eu estava com preguiça de explicar o óbvio, postei o seguinte:

Porém, como disse Mario Quintana "A ironia atinge apenas a inteligência. Inútil desperdiçá-la com os que estão longe do seu alcance. Contra estes ainda não se conseguiu inventar nenhuma arma. A burrice é invencível." 

Então o Alecrim Lacrado veio com isso:

Confesso que achei engraçada a situação, já que a pessoa demonstra uma capacidade cognitiva bem reduzida para fazer uma interpretação de texto simples, mas na cabeça dela eu que sou burro e alienado. 

Esse ser de luz deve acreditar que eu acho que o salário do gari é compatível com o do Neymar, por isso precisou agir para me tirar do fundo da caverna que Platão falava.

A questão disso é que a lógica da lacração faz qualquer cego de óculos escuro se achar Morpheus tirando as pessoas da matrix.


domingo, 18 de abril de 2021

CONTATOS IMEDIATOS


Em um dos anéis de saturno está instalada uma base militar alienígena, onde dois aliens se encontram para discutir detalhes de uma missão muito importante:

-Boa tarde comandante Zordon, Capitão Rafron se apresentando para repassar os detalhes da missão na terra -diz o alien de patente mais baixa batendo continência.
-À vontade, Capitão Rafron. Em que estado está a missão no planeta terra?
-Decidimos avançar na missão e já estamos interagindo com a espécie humana.
-Capitão, o senhor sabe que essa missão é ultrassecreta e os humanos não podem desconfiar que estão sendo estudados?!
-Claro, comandante. Estamos interagindo com eles de uma forma muito disfarçada, eles nem desconfiam.

O alien de mais baixa patente tibubeia por alguns segundos, mas prossegue:

-Comandante, não quero que o que eu diga agora soe como insubordinação. Mas fiquei curioso, se a missão sempre foi ultrassecreta, por quê o pessoal fala até hoje que a gente abduziu vaca.
-Essa é uma história engraçada -disse o comandante com certa euforia incontida- eu fui o responsável pelo sumiço da vaca, mas não tinha nada a ver com a missão.
-Não tinha?! Pegou a vaca por quê então?
-Um churrasco. Eu tinha um churrasco na periferia de marte, vinha vindo de mercúrio e não deu tempo de pegar nada no mercado em vênus. Em vez de fazer o contorno na terra, achei mais fácil pegar algo por ali mesmo.
-Verdade, com aquele monte de satélite é muita mão fazer o contorno por ali.
-Cheguei atrasado no churrasco, mas cheguei tirando onda. Eu dizia que a carne que eu trouxe era tão fresca que se apertasse ela mugia. E mugia mesmo.

Os dois caem na gargalhada. Passados alguns instantes o comandante volta a ficar sério e prossegue:

-Porém, nem tudo foi alegria nesse churrasco. Dois companheiros de farda beberam demais e não venceram o contorno, bateram num satélite e capotaram a nave. O pessoal fala que os dois estavam tão mamados que onde eles caíram batizaram com nome de cachaça.
-Eu lembro disso. Foi quando mudaram todos os protocolos de segurança.
-Gastamos muita grana com Hollywood pra limpar a nossa barra por lá. Problema é que o pessoal acredita em tudo que mostram, o pessoal começou a achar que a gente consertava bicicleta de criança e fazia fisioterapia com velhos na piscina. Mas me diga capitão, que disfarce é esse que estão usando nas interações com os humanos?
-Não é um disfarce comandante. Depois de acompanhar o comportamento humano durante tanto tempo, entendemos que a melhor forma de interagir com os humanos sem que ninguém desconfie da nossa presença é fazer que nem Deus quando fala com eles.
-Como assim, capitão?
-A gente só interage com o pessoal que se contar que viu um ET, ninguém vai levar a sério, tipo a Rita Lee. Batemos um papo maneiro, ela até fez uma música pra gente.

O capitão começa a assoviar a melodia de “Alô alô marciano”, quando o comandante pergunta:

-Como tiveste essa ideia incrível, capitão Rafron?
-Tive essa ideia vendo a entrevista da Babi Consuelo no Jô Soares dizendo que Deus conversava com ela. Na hora pensei esse cara além de trabalhar disfarçado, deve ser comediante.

sábado, 20 de março de 2021

ESTÓRIA DE CARREGADORES

O sangue de Hildebrando gelou ao perceber a aproximação de dois homens em uma moto. Antes que pudesse esboçar qualquer reação de fuga, sentiu o cano do revólver contra suas costas.

Resignado, entrega a carteira e o celular pensando em apenas evitar o pior. Demorou a entender quando o bandido que recolhia os pertences lhe indagou do carregador. Perdido, Hildebrando perguntou:

-Que carregador?
-Tá tirando comigo, irmão?! Que carregador tu acha que eu quero? Tô falando do carregador do celular, comédia.
-Não estou com o carregador.
-Tá me tirando? Tu ia aonde maluco?
-Estava indo pro trabalho.
-E ia sem levar o carregador do iphone? Tá fazendo isso pra não tê como pedir uber depois?!
-É que eu saí apressado porque estou atrasado. Quando isso acontece peço emprestado o carregador do Aninha no serviço, que ela tem um modelo igual ao meu.
-Então tá, amizade, sobe na garupa entre eu e o parceiro ali e vamos lá buscar o carregador da Aninha.
-O que?
-Isso que tu escutô, irmão. Vamo lá roubá o carregador da Aninha.
-Por que?
-Porque eu não vô roubá um iphone sem o carregador. Os malandro já tão até vendendo separado porque o bagulho custa uma nota.
-Mas nós três numa moto vai chamar atenção da polícia.
-Tá certo. Mora perto?
-Algumas quadras.
-Então vamo lá buscá.
-O celular não é suficiente? Por que tanta insistência com o carregador?
-Moço, virei ladrão depois que perdi minha mãe. E o senhor sabe, que mãe a gente tem que respeitá. E se tem coisa que minha mãe sempre me disse foi que feio era roubá e não podê carregá.

Pai, sabe o que a tia Juliana tem?

-Pai, sabe o que a tia Juliana tem?

A pergunta simples fez a cabeça de Inácio dar uma longa volta pelos caminhos da lembrança. Não conseguia lembrar qual das professoras da escolinha do filho era a tia Juliana.

Além da curiosidade natural que a pergunta desencadeia, Inácio sentia necessidade de desvendar esse mistério como medida de preservação da sua própria saúde, porque desde que se separou acabou tendo alguns encontros casuais com uma ou outra professora do filho.

Inácio pensava que precisaria fazer um check up completo, com todos os exames possíveis que detectam doenças venéreas. Percebendo a expressão de preocupação do pai, o filho repete a pergunta:

-Pai, sabe o que a tia Juliana tem?
-Não sei não meu filho, tomara que não seja nada grave.

Sem entender a resposta do pai, o menino completa:
-A tia Juliana tem um iphone. Por que tá com essa cara pai?

Após um suspiro de alívio, Inácio responde ao filho:
-Nada não, só tenho que desmarcar uns exames.

quarta-feira, 17 de março de 2021

O MISTÉRIO DO SORRISO DESAPARECIDO

Seu Antenor acordou no meio da noite, o que não costumava acontecer. Com a barriga roncando de fome, a cada rugir de leão nas tripas, esbravejava em pensamento para não acordar ninguém na casa: “Eu disse que sopa não é janta!”

Ainda deitado, resmunga para si mesmo sua insatisfação de ter se sujeitado a morar com o filho e a família após a viuvez, mesmo ainda podendo se cuidar. Se ainda morasse sozinho, podia encomendar um lanche e assistir TV até pegar no sono de novo.

Agora vivendo sob o teto do filho precisava decidir entre dormir com fome ou levantar para fazer um sanduíche, se esforçando para não fazer barulho e acordar alguém. Além dos horários para dormir e acordar, precisava se esconder para pitar um cigarro. É, parece que
o jogo virou.

Embora goste da convivência diária com o neto, com quem se diverte muito, seu Antenor acha que a comida saudável da nora e a conversa chata do filho, advogado de falência, são um preço muito alto para se pagar.

Decidido a não dormir com fome, levanta-se da cama, calça as pantufas e se depara com o copo d’água onde guardava a dentadura vazio. Surpreso põe os dedos na boca para se certificar que estava com as gengivas nuas.

Sem fazer barulho, seu Antenor procura sem sucesso por toda casa sua dentadura, até ter um lampejo ao lembrar da ansiedade do neto para perder o primeiro dente depois de ouvir a estória da fada do dente.

Debaixo do travesseiro do neto encontrou a dentição do seu sorriso, como uma farta oferenda para a fada do dente, que certamente precisaria de um financiamento para quitar esse contrato. Sem moeda no bolso do pijama, seu Antenor escreveu um bilhete e deixou sob o travesseiro.

Apenas o vovó entendeu a graça quando o neto disse que ia precisar da ajuda do pai porquê a fada do dente tinha pedido falência.

terça-feira, 16 de março de 2021

UM DEPUTADO NO NOSSO LAR

Silvio chega atordoado pela falta de ar, depois de dias entubado, seus olhos demoravam a se acostumar com a claridade. Deitado em um tipo de maca, ao ver alguém vestido de branco passar por perto pergunta:

-Enfermeiro, onde eu estou?
-Nosso Lar.
-Como?
-Colônia Espiritual Nosso Lar. Achei que com o filme fosse popularizar isso, mas não, tem que dizer a razão social inteira cada vez que chega alguém aqui.
-Quer dizer que eu morri?
-Não, deputado, a gente aqui aproveitou que vossa excelência estava entubado e trouxe aqui pra fazer uma licitação pra construir uma ala pra receber quem morre de covid. Fazer uma área vip chamada kloroquina, com k pra ter um diferencial.
-É sério isso?
-Óbvio que não, você morreu, como milhares de outros brasileiros, vitimado pelo coronavírus.
-E o tratamento precoce?

Neste momento o espírito vestido de branco encara o deputado e começa a cantar com uma voz fina, parecendo Alvim e os Esquilos, a música que se popularizou nas redes sociais “Oh no oh no no no”.

Silvio indignado esbraveja:

-Você está debochando com a minha cara. Chame o seu superior aqui. Ou melhor, chame o Chico Xavier, que já deve ser presidente por aqui.
-Primeiro que aqui não tem essa de pistolão; segundo que o Chico ficou de espírito guardião responsável pelo Brasil até 2018, depois disso ele pediu o boné e picou a mula. E tem mais, deboche é o senhor deputado, em plena pandemia, a gente tendo que fazer plantão duplo aqui no Nosso Lar pra receber esse monte de gente que vem do Brasil e o senhor criar lei pra desobrigar a vacinação.

Um pouco mais distante dois espíritos superiores observam a cena, enquanto um comenta com o outro “Devemos parabenizar quem teve a ideia de colocar comediantes para receber os políticos e os negacionistas. O trabalho é pesado, mas tem sido bem mais divertido.

sábado, 13 de março de 2021

Rosa mística, esse nome, sei não...

Minha mãe cursou história na UFPel, já eu fiz direito na FURG. Pontuo essas informações pra justificar o entendimento cômico deste diálogo.

Digo isso, porque quando eu comentei, ainda no começo da faculdade que eu tinha ido tomar uma cerveja com os colegas no Rosa Mística, minha mãe disparou:

-Isso é bar de maconheiro. Isso é bem nome de bar que junta só a marofa.
Não posso negar que alguém que foi estudante de história, supõe-se, tenha expertise no assunto, mas convicto respondi pra minha mãe:

-O nome é sugestivo, mas não é.
-Como que tu sabe?
-Eu procurei, incansavelmente...

Rimos muito, eu apanhei.

quinta-feira, 11 de março de 2021

POR MEUS JOELHOS

Após um ano, voltei a fazer pequenas caminhadas. Meus joelhos exigiam.

No último ano, antes da pandemia, eu sentia o meu joelho esquerdo quando pressionava a embreagem.

Percebi que havia todo um exercício invisível que eu realizava no meu cotidiano. Do carro até o escritório, subir os três lances de escadas até a minha sala no quarto andar.

Descia uma ou duas vezes para ir na fruteira comprar uma salada de frutas; ou numa loja, na esquina da Osório, pegar incenso e uma cartela de trilegal.

Enfim, o que eu queria dizer é que fazia um ano que não caminhava e meus joelhos já estavam demonstrando os sinais da idade ao serem exigidos apenas para os pedais do carro.

Voltei a caminhar... Comecei aos poucos... Antes tinha que vencer o receio que adquiri de sair à rua, após tanto tempo de isolamento social.

Comecei a caminhar dando alguma utilidade para a minha caminhada, ia buscar pão pro café, calabresa para o feijão. Era bom que sempre aproveitava para ir no supermercado onde mediam a temperatura na entrada.

Na vez que minha temperatura era 37,5, aleguei que nesta cidade já havia sido decretado que 37 e meio não é febre. A moça que media a temperatura chorou ao som de uma charanga.

Voltei a caminhar, após um ano. E já percebo a fisionomia da cidade modificada. Muitos estabelecimentos que compunham a paisagem do meu caminho dando lugar a placas de aluga-se amontoadas no rosto das cortinas de ferro.

Não somos mais os mesmos, penso parafraseando Heráclito diante do imponente prédio onde foi a maior vídeo locadora da cidade. Por ironia do destino hoje é uma farmácia.

Preciso de um discman para trocar estes pensamentos aleatórios por música durante as caminhadas...

DIÁLOGOS DE DOIS NEURÔNIOS TRABALHANDO NO PLANTÃO


"-Em que mundo você vive?
-No Brasil"

Saber ler não significa saber interpretar o que está escrito. Eu fico imaginando possíveis diálogos que os neurônios teriam nessa hora:

-Zé, acabaram de perguntar aqui em que mundo a gente vive. Tem aquele acento que parece um anzol é uma pergunta, isso eu sei que explicaram naquele curso que a Simone fez de mobral.
-Ué, responde que é Porto Alegre. Precisa do endereço e do CEP também pra responder? Vão mandar carta.
-Você é um neurônio muito burro, Zé. Não tão perguntando onde a gente vive, mas em que mundo a gente vive
-A gente vive no cérebro. Precisa descrever? Diz que é amplo, parece um depósito vazio, a gente fala e até dá eco aqui dentro.
-Mas você é muito estúpido mesmo, Zé. Não é o mundo que a gente vive, é o mundo que a Simone vive.
-Ah! Por que não falou antes. Essa é fácil: whatsapp.
-Não deixa de ser verdade, mas acho que não é isso que a gente precisa pra agora.
-Cloroquina e ivermectina.
-Também não é isso, Zé.
-Ah cara, faz que nem eleição e sai com um Brasil acima de tudo.
-É isso, Zé. O mundo que ela vive, é essa resposta: Brasil.
-Longe de mim duvidar do seu conhecimento, chefe, mas Brasil não seria o país que ela vive?!
-Já respondi, Zé e sua pergunta é apenas retórica. Aprendi isso naquele curso de sobral.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

DO TOBA


Eram seis e meia da manhã quando Maria Cecília, mais conhecida no bairro como Cidinha manicure, foi acordada pelo filho, ladeado por dois policiais militares:

-O que aconteceu de errado, meu filho?!
-Eu vim cobrar o PlayStation que a senhora me prometeu.
-Que brincadeira boba é essa meu filho?! São seus amigos disfarçados de policial?! É uma trolagem praquele seu canal no YouTube?!
- Não, mãe. Eu vim cobrar o PlayStation que a senhora sempre me prometeu.
- Meu filho, você pede esse PlayStation desde que tinha dez anos e eu sempre digo só se eu tirar do toba.
-Por isso a Polícia Federal! Acabei de saber do trabalho que eles fizeram com um senador, tiraram praticamente um uno zero quilômetro do toba dele. Um PlayStation vai ser fácil.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

JÁ FUI ROTEIRISTA DO CHAPOLIN, SABIA?!

Já fui roteirista e ator de um remake do Chapolin, já contei pra vocês?!

Isso foi na oitava série no colégio Cecília Meireles, aula de português da professora Palmira. Acho que pra não ter que ver aquele monte de moleque da escola pública de novo no outro ano falando “pobrema” e tauba”, a professora pediu pra turma se dividir em grupos e ensaiarem uma peça para apresentar em aula.

Pois bem, grupos divididos, sobraram apenas eu e um amigo, que era também meu vizinho, e fazia uns três anos que caímos sempre na mesma turma no colégio, de forma que ficamos sem grupo, muito provavelmente, por causa dos nossos antecedentes na escola.

Porém, para a professora mais importante que a peça em si, era a mensagem que a peça deveria passar, então tinha grupo que ia falar de gravidez na adolescência; tinha outro grupo que abordava preconceito com relação a casais inter-raciais, com beijo técnico e tudo.

Como nenhum grupo se dispôs a nos aceitar nem como atores coadjuvantes e a gente precisava da nota pra terminar o primeiro grau (era assim que chamava na época), começamos a pensar que peça apresentar com apenas dois personagens. E naquele verdadeiro brainstorm chegamos a nossa referência de dramaturgia: o programa do Chaves e do Chapolin.

Lembramos de uma esquete protagonizada pelo Ramón Valvés (Seu Madruga) e Carlos Villagrán (Quico), onde Valdés interpreta um mendigo com uma placa escrito CEGO. Villagrán faz o papel do benfeitor que vai dar uma esmola.

Antes de dar o dinheiro, o personagem diz que vai dar um determinado valor, ao que o suposto cego reclama que a nota é de valor menor. O doador questiona “Você não é cego?”, ao que o mendigo vira a placa que do outro lado diz SURDO.

Indignado o benfeitor interpretado por Carlos Villagrán contesta “Como surdo se está conversando comigo?”. Então o mendigo, interpretado por Ramón Valvés, responde “Surdo é o rapaz que fez o cartaz, eu sou analfabeto, não sei o que está escrito”.

Então o suposto mendigo, que era na verdade um verdadeiro 171, começa a contar um maço de notas antes de sair de cena e o doador então tenta se passar por mendigo. Enfim, esse é o resumo da esquete.

Os outros grupos já estavam ensaiando há algumas semanas, enquanto a gente teve a ideia na véspera do dia da apresentação. Então eu assumi o papel de roteirista e fui de tarde depois da aula pro escritório do meu pai pra usar o computador pra escrever os diálogos da peça.

Fiz também um cartaz com as palavras CEGO/SURDO, uma em cada lado, plastifiquei com durex e usai uma cordinha de óculo para segurar no pescoço. Não precisei me vestir de mendigo porque na oitava série naturalmente a gente já se veste que nem um desabrigado.

No outro dia ensaiamos algumas vezes os diálogos e a cena em si, como ninguém tinha coragem de começar, nos oferecemos para sermos os primeiros a se apresentar. A professora ficou entusiasmada, achou que a gente estivesse interessado, mas a gente só queria se livrar daquilo.

Eu fiz o papel do mendigo e terminava a minha participação na peça saindo pela porta e ficava o meu amigo fazendo o final da cena. Dou um tempo, quando eu volto a professora tá perguntando pro meu colega qual era a mensagem da nossa apresentação, sem titubear ele responde “Não dê dinheiro a mendigos, eles são muito mentirosos”

E foi assim que a peça, protagonizada pelos dois primeiros nomes que a diretora sempre falava quando ia na nossa sala de aula, foi a única nota dez.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

GOSTA DE MORANGO?


Eu estava comendo morangos, naquela loteria de escolher aleatoriamente entre um que podia ser muito doce ou muito azedo. Fiquei me questionando porque eu considerava morango uma das minhas frutas preferidas, afinal de contas não é das frutas mais saborosas.

Se não está no sabor, onde estará a âncora afetiva que me faz gostar de morangos? Lembrei que minha avó tinha alguns pés de morango na casa da vila. Lembro-me apenas dos frutos ainda verdes, jamais consegui conhecê-los maduros ou saber seu sabor. A voracidade dos meus primos sempre chegou antes de mim naqueles canteiros.

Porém a história com morangos que me marcou, ainda na infância, não é nem minha, foi uma notícia no jornal. Um fato inusitado sobre uma moça que havia dado entrada no hospital com um morango na cavidade vaginal. Na época, eu era criança, mas sabia o que era um morango e onde ele estava, o caminho que ele fez até chegar lá é que era motivo de curiosidade pra mim.

Porque eu era criança tudo que conseguia pensar era naquela brincadeira de jogar o amendoim pro alto pra pegar com a boca. Na minha cabeça de criança a guria tava brincando disso pelada e o morango foi parar na xereca.

Com o tempo fui entendendo melhor da vida e da acidez das frutas cítricas. Porém, mesmo entendendo o contexto, sempre achei essa situação muito engraçada. Eu fico imaginando como os namorados combinaram:

-Amor, qual a sua fruta preferida?
-Abacaxi.
-Cheguei a ficar arrepiada aqui. Não, nada muito ácido ou cítrico, diz outra.
-Pera.
-Não.
-Uva
-Não.
-Salada mista.
-Tem que ser uma fruta que encaixa direitinho nos lábios, se é que você me entende
-Butiá.
-Você não entende as coisas mesmo, né Norberto?! Só me diz uma coisa, gosta de morango?
-Com leite condensado eu gosto.
-Leite condensado lambuza muito, gosta de chantilly?
-Bela Gil, é você?! Que receita é essa?
-Fica tranquilo, vou te levar a loucura!

Corta cena o casal de namorados no motel, chantilly e morango preparado, está lá o namorado tentando catar o morango com a boca, quando levanta a cabeça com aquela cara de zagueiro que errou o bote e fez gol contra:

-Mônica, perdi o morango!
-Como assim, Norberto, perdeu o morango?!
-Sei lá, Mônica. Você exagerou no chantilly.
-Você perdeu o morango dentro de mim, Norberto?!
-Eu te falei que a minha fruta preferida era maçã, não correríamos esse risco.
-Ah! Sim, eu ia ficar no motel parecendo um leitão à pururuca. Perereca à pururuca.

Norberto se dirige ao telefone:

-Vai ligar pra onde?
-Pra recepção, pedir ajuda. Isso já deve ter acontecido antes.
-Ah! Sim, quem sabe eles não mandam um funcionário com aquele negócio de tirar bicho da piscina pra ajudar. Estamos num motel, seu animal. Vamos pro hospital.
-A gente a recém chegou no motel, vamos perder a pernoite.
-Quem sabe então a gente não aproveita que já tô com chantilly e morango na xavasca, eu jogo pó de café, danço um funk e a gente vende como buceccino, um café de sabor e odor forte.

Enfim, sempre viajo nessa história cada vez que tenho que preencher essas fichas de atendimento médico de emergência. Se perguntar aqui minha fruta preferida vou dizer que é bergamota.

Das travessias intrínsecas

Lembro que eu devia ter por volta de dez anos, estava jogando bola na frente de casa quando ouvi o burburinho de que meu irmão tinha sido at...