Cinquenta
dias de quarentena, Márcia percebe um comportamento estranho de
Augusto que parece inquieto, como se estivesse escondendo algo, mas
acha melhor não falar nada para evitar uma briga desnecessária pra
evitar um climão durante o período de isolamento social. Após
passar uma hora e meia com ambos em silêncio na frente da TV que
passava um programa dominical, até que Augusto irrompe:
-Márcia,
preciso te falar uma coisa!
-Ai
ai, que foi, Gugu?! Não vai me dizer que tá com coronavírus?
-Não
é nada disso. Preciso te contar uma coisa, não posso mais guardar
isso.
-Não
vai me dizer que tu tem uma amante e resolveu me contar justo agora
na quarentena. Ah! Que se tu tiver uma amante te faço passar o resto
da quarentena na casa da tua mãe!
-Mas
minha mãe já morreu, Márcia?!
-Então
tu entendeu o meu recado!
-Não
é nada disso, não tem nada de amante.
-Achei
mesmo, se chovesse xereca tu ia andar de galocha e guarda-chuva.
-O
que você disse?
-Que
se chover, tu é um homem prevenido.
-Ah!
Bom... Mas o que eu quero contar é um segredo que eu escondo de
vocês desde o início do nosso relacionamento.
-Tu
escolheu a pandemia pra sair do armário, Gugu?! Eu achando que a
gente não tá transando em todos os cantos da casa por causa do
estresse da quarentena.
-Não
é nada disso, Márcia.
-Não
tá me comendo por quê, então?
-Isso
é a quarentena.
-Quarentena
mesmo, Augusto! Já são 40 dias... e contando.
-Eu
não ando com cabeça pra isso mulher.
-Estranho,
porque tem tomado uns banhos bem demorados.
-O
que você quer dizer?
-Tô
dizendo que tu é um homem limpo. Mas fala de uma vez qual é esse
segredo que tu esconde desde o início do nosso relacionamento. Já
tô desconfiando que tu queria me levar pro programa “Casos de
família” pra contar isso, mas a pandemia estragou teus planos.
-Márcia,
eu não aguento mais fingir ser alguém que na verdade eu não sou!!
-Como
assim fingir ser alguém que tu não é? Só falta aparecer agora o
Scooby Doo e sua turma pra tirar uma máscara pra revelar que na
verdade é um eunuco.
-Chega!!
Eu quero dizer que eu não consigo furar a parede para colocar os
quadros.
-Como
assim?!
-Também
não sei trocar resistência do chuveiro, a mangueira do gás ou
consertar a torneira da pia. Enfim, não sei fazer nenhum dessas
coisas de “homem”.
-Mas
como se tu já fez todas essas coisas aqui em casa?
-Não
fui eu que fiz, eu contratava um marido de aluguel pra fazer todas
essas coisas por mim. Por isso eu só “fazia os reparos” quando
você não estava em casa e usava como desculpa que não queria te
incomodar.
-Ainnn,
eu achava isso tão fofo. E as fotos, são montagens?
-Não
são montagem, apenas fingimento. Eu pagava um extra e o marido de
aluguel tirava a foto pra mim e ainda emprestava as ferramentas pra
foto.
-Como
assim emprestava as ferramentas, tem uma caixa de ferramentas na
garagem Augusto?
-A
caixa de ferramentas está vazia, eu nunca tive uma mísera chave de
fenda. É que eu sou hétero, mas nunca gostei dessas coisas de
hétero machão, tipo carro importado e moto cara. Eu sou o tipo de
cara que gosta de arte e música clássica, mas isso nunca me ajudou
com as mulheres
-Pode
isso, Arnaldo, digo, Augusto?! Periga não entender a referência.
-Entendi,
Márcia. Mas é isso, se ser homem padrão fosse um curso eu ia
passar em exame.
-Tu
fez supletivo pra homem e só passou no teste porque chupava uma
xereca muito bem.
-O
que, Márcia?
-Ai,
saudade de quando tu era um aluno aplicado. Mas porquê que resolveu
contar esse segredo justo na pandemia?
-É
que já estamos em quarentena a não sei quanto tempo e fazem 40 dias
que você me cobra pra consertar o ventilador de teto do nosso quarto
e não posso chamar o marido de aluguel pra fazer o reparo por causa
do isolamento social.Isso já tá me deixando louco.
-Está
tudo bem Gugu, meu amor. Não precisa sofrer por causa disso, depois
que tudo passar a gente chama o marido de aluguel pra resolver isso
então. O importante é ficar bem neste período de quarentena. Tu tá
bem agora?
-Sim,
me sinto melhor agora que contei isso. Saiu um peso de mim.
-Tá
bem então?! Que tal uma prova de recuperação pra não perder o
ano?!
…
Uma
hora e meia depois Márcia repousa ao lado de Augusto que está
deitado de bruços, enquanto ela fumava um cigarro com o olhar fixo
na pá quebrada do ventilado de teto.
@oantonioguadalupe
