Não sei ao certo quando comecei a brincar com as palavras e as rimas, acho que desde que minha mãe, num longínquo dia da minha infância na década de 80 me ensinou o versinho "o amor é uma flor roxa, que nasce no coração dos trouxas", fiquei fascinado por este terreno da palavra onde habita a graça e também a poesia.
Lembro que repetia várias vezes o verso, buscando entender os sentidos que cada palavra me oferecia, afinal de contas, se o amor é bom, por quê só florescia no coração dos trouxas?! E assim eu ia tentando desvendar o paradoxo existente no verso, embora paradoxo ainda não fosse uma palavra do meu vocabulário de criança.
Fui me arriscar a brincar com as rimas pela primeira vez lá pelos meus doze ou treze anos, uma letra debochada que escrevi num estilo Mamonas Assassinas, toda rimada com palavras do tipo dormência e sofrência. Assim, na última página de um caderno da 6ª ou da 7ª série, foram registrados os meus primeiros rabiscos poéticos.
Admiro a ousadia que tive, no auge dos meus doze ou treze anos, em minha primeira incursão pelos campos da poética, escrever uma letra toda com a mesma rima. É trabalhoso reunir tantas palavras que apesar de terem sonoridades tão semelhantes, guardam sentidos semânticos tão diversos.
Ao catorze comecei a fazer aulas de violão, meu professor integrava um grupo musical que estava no processo de pré-produção de um cd, estavam definindo o repertório do disco, procurando e compondo músicas. Foi quando decidi escrever quatro letras e mostrar para meu professor, movido basicamente pela vaidade de imaginar o meu nome registrado como autor de uma música em um cd. Acabou que ninguém deu importância para aqueles versos de ocasião, nem eu.
Porém, numa noite de insônia despejei todas as inquietudes que me incomodavam, através de uma linguagem regional, no papel, e assim nasceu “Milonga na madrugada”. Meu professor de violão leu aqueles versos, muito mal escritos, e decidiu musicá-los pra gravar. Algumas semanas depois, eu sairia de um estúdio, no bairro Simões Lopes, com a minha primeira música gravada.
Nesta época minhas referências musicais estavam mudando, trocava o Charlie Brown Jr e o Gabriel, o Pensador por Luiz Marenco e Gujo Teixeira. Neste período comecei o processo que eu chamo de vestir o meu eu lírico de bota e bombacha, pra fazer ele pegar o laço e arrebanhar as palavras pra leva-las ao brete do nativismo.
Escrevi mais uma ou duas letras que meu professor musicou e gravamos. Fiz ainda uma gravação simplesmente horrível, onde gravei violões desencontrados e cantei numa afinação alienígena. Menos mal que a letra e a música eram minhas, não estraguei o trabalho de ninguém, só minha dignidade mesmo.
Só pra constar, ainda tenho estas músicas registradas num cd. Durante muito tempo eu escondi estas gravações, até hoje só eu e um amigo ouvimos pra debochar dessa fase vergonhosa da minha vida poética. E só deixei ele ouvir porque gravamos um programa Flavio Clasen juntos, enfim, não tinha como eu me sentir mais envergonhado diante dele depois disso.
Mas voltando aos meus quinze ou dezesseis anos, eu escrevi mais um punhado de letras, porém nada foi gravado. Uma frase do Caio Fernando Abreu me fez perceber que escrever é colocar o dedo na garganta, e as ideias do Michel Melamed sobre Regurgitofagia, me fizeram entender que eu precisava me alimentar para ter o que colocar pra fora na hora do dedo na garganta.
Tinha início, então, a fase da fome, precisava alimentar o meu eu lírico através da leitura. Começava a nutrir minhas ideias com Gujo Teixeira, Jayme Caetano Braun, Mario Quintana, Luiz Sérgio Metz, Mauro Marques, Jorge Luis Borges, Kafka, Rodrigo Bauer, Cecília Meireles, Jaime Vaz Brasil, Sócrates, Platão, Aristóteles. Até mais ou menos meus vinte anos, este era basicamente o cardápio da minha biblioteca.
Neste período, fiz uma oficina de poesia com um cara que tinha o tamanho de uma criança e o conhecimento de um sábio. Nos tornamos muito amigos, ajudei ele numa pesquisa sobre músicas que faziam referência a obra de Simões Lopes, em retribuição ele fez uma citação no livro sobre uma música minha que se baseava na obra do Simões e estava inédita... Porque eu não tinha feito a música (e não fiz ainda)
Pouco tempo atrás soube da sua morte e sonhei com ele nesta noite: a gente se encontrava na Praça Coronel Pedro Osório, ele vinha em minha direção e dizia “Ô, sem vergonha, quando é que tu vai fazer a música que tu disse?! Tô passando por mentiroso na frente do Simões” apontando pra estátua do próprio Simões na praça.
Fiz ainda outra oficina de criação literária, onde passei mais de um ano lendo e discutindo clássicos da literatura e aprendendo técnicas de escrita de contos, crônicas e romance. Agora vai parecer mentira, mas advinha quem ministrava a oficina?! Uma descendente do próprio Simões Lopes. Parece causo do Romualdo, até porque a maior parte da turma era de senhoras já bem velhinhas e hoje quase vinte anos depois a maior parte já deve ter morrido. E quem tá vivo certamente não deve lembrar de muita coisa.
A oficina me estimulou a ler diversos clássicos da literatura, de Machado de Assis a Shakespeare, de Jorge Amado a Saramago. Eu vivia situações muito engraçadas na oficina, já que a turma era composta em sua maioria por senhoras com mais de 60 anos, além delas duas mulheres na casa dos 40 e uma guria que regulava de idade comigo e cursava jornalismo. Só havia outro homem na turma, um estudante de letras que aparentava ter cerca de 40 anos.
Confesso que escrevi muito pouco durante a oficina, tanto que acabei não fazendo parte do livro que foi feito com os textos da turma ao final. Pra ser bem sincero, diversas vezes eu acabava escrevendo textos cômicos, que eu não dava muito valor na época. A lembrança mais inusitada dessa época é eu, tomando clericot com as senhoras da turma num apartamento na Praça Cel. Pedro Osório. Quem diria, da canha com butiá para o clericot.
Depois veio a faculdade de direito, período que a poesia ficou encubada em mim. Nesta época me dediquei a compor melodias, dando, assim, asas aos versos de outros poetas. Ainda escrevia alguns versos, que na maior parte das vezes eu acabava não dando continuidade.
Agora durante a pandemia comecei a visitar meus arquivos e papeis guardados, encontrando diversos rascunhos de poemas inacabados, e ideias que não desenvolvi ao longo deste tempo. Ao encontrar dois versos rascunhados numa folha perdida entre os meus guardados, pensei: “Por que não terminar este e outros poemas que deixei perdidos no tempo?”.
Foi assim que eu decidi escrever um livro de poesia, que pretendo escrever até o fim do ano que vem e lançar nem que seja em ebook. Quero criar inclusive um grupo de convidados que tenham interesse de acompanhar o processo de construção do livro, que terão acesso exclusivo a poemas escritos e declamados.
Se tiver interesse de embarcar nesta viagem, curte e comenta essa publicação e fica ligado que vou abrir uma caixa de comentários nos stories para quem quiser acompanhar o processo de construção do livro, praticamente, poema a poema.

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