sábado, 14 de novembro de 2020

Pelos porões da loucura

Eu passei alguns anos sem escrever um poema por completo. Escrevia sempre algumas poucas quadras, que ficavam sempre embrionárias, em sucessivos arquivos de Word pelos meus computadores.

Eu vivia em busca do verso perfeito. E nessa busca, muitas ideias nem chegavam a tocar o papel. Aí eu li esse livro que retrata os horrores que aconteciam em manicômio em Barbacena MG.

Não sei ao certo o que aconteceu durante a leitura, mas passei alguns dias inquieto e comecei a escrever em versos as imagens que o livro remetia.

Algum tempo depois esse poema  participou do prêmio Carlos Drummond de Andrade de poesia, realizado pelo SESC-DF. Não ganhei nada, mas também já tava acostumado que os festivais nativista pra mim foram uma escola nesse quesito.

PELOS PORÕES DA LOUCURA
Pelos porões da loucura
ficam corpos desvalidos
que o descaso abandonou
na casa dos esquecidos...

A loucura mostra o rosto
que esconde nos bastidores
enquanto loucos rastejam 
por imundos corredores.

Pelos porões da loucura
vagam dementes exaustos
que revelam sua nudez
com imagens do holocausto.

Loucos finando de fome
jogados no esquecimento
que por vezes se alimentam
do seu próprio excremento.

Pelos porões da loucura
a morte é coisa normal
e o tratamento de choque
que não lembra um hospital.

Condenados a morrer
de um jeito tão desumano
quem vê de fora pergunta:
-”Afinal, quem são os insanos?”

Pelos porões da loucura
a lucidez range os dentes
fazendo as contas da morte
com sua lógica excludente.

E no comércio dos corpos
se lambuzando em sadismo
a loucura esconde o rosto
por detrás de um eufemismo.

@oantonioguadalupe


(Postagem do poema no Instagram do Canal Conta Comigo)

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