Depois de ver algumas postagens nas redes sociais falando da música da Rita, a da facada, criticando a sua “pobreza” poética e musical, fiquei refletindo o quanto o nosso conceito estético, com relação a obra artística que criticamos, pode refletir um preconceito.
Confesso
que durante muito tempo em minha vida tive uma visão depreciativa sobre estas
canções populares, julgava este tipo de trabalho por meio de uma suposta “pobreza
poética”, me indagava como pode algo tão simplório ter esse êxito, esbravejando
que no Brasil qualquer porcaria faz sucesso, e por aí vai.
Com
o tempo fui percebendo que minha crítica era elitista, entender que uma música
precise ter uma elaboração apurada, fazer uso das mais requintadas técnicas
literárias é algo que serve para massagear o ego e tentar justificar um
preconceito musical.
Embora
não encontre qualquer afinidade literária com os versos da letra de Rita, me
livrar do preconceito me ajudou a apreciar, mesmo aquelas obras que num
primeiro momento eu julgava inaudíveis. E vamos combinar que esta música está
se comunicando com o seu público, simples.
Nem
todos vão se identificar com o belíssimo amor de Ulisses e Penélope, agora o
verso “volta que eu perdoo a facada” tenho certeza que fez alguns amigos
lembrarem um amor que deixou marcas.
Eu
aprecio uma música clássica no piano ou com orquestra. Porém hoje entendo que
não vou macular meus ouvidos virgens se ouvir uma música daquelas que toca em
zona que a puta cheira a amor gaúcho e acerta o preço contigo fumando um derby
do maço vermelho.
A
técnica pode ser a maquiagem da mediocridade. Somos constantemente colonizados
pelo nosso estilo, pela nossa escola musical; passamos a colocar uma cerca para
delimitar o que no nosso entendimento é bom. Chavões como “existe música boa e
ruim” criam este cercamento, esse rótulo para o que não alcança um determinado
padrão estético que estabelecemos.
Promovemos
uma espécie de vestibular artístico para saber se a obra vai ser aprovada pelos
nossos critérios. Fazemos o imposto de renda das palavras para saber acerca da
riqueza das rimas. Julgamos a obra e o público, como se eles tivessem culpa de
se comunicarem, de se entenderem e de não nos entenderem.
Somos
tomados de soberba porque a leitura e a técnica nos armaram, nos sentimos com o
porte de poesia. E as vezes temos um verso muito bem escrito e admirado, porém,
apenas por outros poetas.
Tem
algum tempo que digo que a crítica não deve ser direcionada ao trabalho do
artista, apontando o dedo pra determinar o que é ruim, mas sim para os veículos
de comunicação que se corromperam com a prática do jabá e muitas vezes
transformam uma música num sucesso instantâneo que somos obrigados a conhecer.
A
perversão do sistema que leva concessões públicas a se dobrarem ao poder
financeiro é que deve ser objeto de crítica e não a obra. Mais importante que
criticar a obra, penso, é querer garantir que quem curte a facada da Rita,
possa ter acesso ao verso perfeito do amor de Penélope e Ulisses, que num
primeiro momento vai parecer um romance sem muita emoção.
Não
devemos pensar em colonizar o mundo com nosso apuro técnico, mas tentar
garantir que possam conhecer o que fazemos. Temos liberdade artística, mas
preferimos permanecer trancados nos nossos rótulos estéticos e estilísticos.
Esse
preconceito acaba criando uma falsa crença de que o que apreciamos está num
degrau intelectual mais alto, cria-se a ideia de que a arte que faço e consumo não
é para todos, porque ela é muito genuína, autêntica, elaborada e blábláblá. Em
síntese, “nego bom não se mistura” DOS PAMPAS, Crioulo (campeiro erudito deve
se isso).
Enfim,
as bases de quem critica a Rita são as mesmas do conceito do “campeiro erudito
de outros tempos” que um Platão pampeano tentou definir ao criticar os mais de 60
mil expectadores da live do Baitaca, numa tentativa filosófica de tirar o povo
“do fundo da grota”.
Nesta
oportunidade, não faltou quem criticasse o preconceito manifestado, defendendo os
aspectos populares da obra do cantor missioneiro. Não podemos agora ser
hipócritas de achar que o Baitaca é o Fernando Pessoa comparado a música da
Rita.

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