quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

UM CLICHÊ COM ATRASO: MEU RETROSPECTO DE 2020

A cada virada de ano é comum fazermos um inventário do ano que acabou e projetar algumas metas para o que se inicia. Mesmo os niilistas que nem eu que não tem qualquer entusiasmo com as festas de final de ano costumam fazer alguma reflexão sobre encerramentos e renovação de ciclos, entre outros clichês. 

Pra mim 2020 ia ser uma piada (e até foi). Depois de um ano e meio fazendo stand up sob condições adversas de ambiente e de público, eu idealizei um projeto de uma noite de comédia que foi um sucesso com 34 pagantes e zero reclamações. Digo que foi um sucesso porque o placar “pagantes e reclamações” sempre foi o inverso. 

Eu me lembro bem que quando peguei o dinheiro dos ingressos pensei “consegui pagar um dos microfones que eu comprei pra fazer essa noite, agora falta o outro microfone e o cronômetro”. Não é uma tarefa fácil levantar uma cena de humor longe das capitais, sem nomes conhecidos na comédia e com elenco curto, mas eu estava disposto a enfrentar esse desafio. 

Aí veio a pandemia e o meu projeto ficou em stand by. Tentei produzir algum conteúdo de humor nas redes sociais, escrevi alguns textos, graveis alguns vídeos, mas tudo de forma esporádica e sem nenhuma constância. 

Estudei comédia. Comprei dois cursos de stand up e refiz outro curso que já tinha feito; comprei outros livros de comédia e quadrinhos. Troquei de celular pra gravar alguns vídeos com conteúdo de humor. Não gravei os vídeos, mas tirei bastante foto bonita com o efeito do foco dinâmico. 

Acompanhei todas as lives do ap72 e escrevi para o concurso do instagram. Classifiquei piadas em três oportunidades. Entendi que nem sempre aquilo que a gente mais gosta de escrever é o que funciona. 

O isolamento social me impeliu a introspecção. Decidi começar a ler alguns dos tantos livros que havia comprado ao longo dos anos e procrastinava as leituras. Voltei a tocar o violão que há tempos vivia uma vida de álbum de retratos, que eu resgatava num canto esquecido quando queria tocar alguma lembrança dormida. 

Encontrei inúmeros rascunhos de versos que fui deixando inacabados pelo caminho, resolvi resgatá-los do esquecimento de uma gaveta, onde aguardavam o destino de serem cremados. 

De dois versos rabiscados numa folha com marcas de café derramado pelas bordas de uma xícara escrevi um poema. Escrevi outros por meio da racionalização de alguns processos criativos na organização das ideias. 

Escrevi bastante sobre o meu processo de escrita tentando entender porque escrevia de forma imprevisível. Eu vivia semanas de criações poéticas intensas, em meio a anos que eu não escrevia nada. Botei na cabeça a ideia de fazer um livro de poesia até o final de 2021. 

Entre poemas, piadas e acordes, passei uma música na triagem de um festival depois de sete anos. Foi na Tertúlia de Santa Maria. Foi impossível não lembrar que 17 anos atrás eu desbrava as ruas desta cidade numa das primeiras viagens que fazia sozinho em busca do sonho festivaleiro. 

Fiz um vídeo para convidar as pessoas a acompanharem o festival e aproveitei pra fazer piada com a minha carreira como compositor. Eu me embebedei no dia do festival e fiz piada no grupo do festival, na transmissão ao vivo do youtube e do facebook. Perdi o festival e seis latão de Heineken chamando o Hugo as três da madruga. 

Lembrei do que um amigo compositor me disse muitos anos atrás, de que a música e os festivais são como uma cachaça. Na hora eu pensei “mas eu já tinha até entrado pros Alcóolicos Anônimos”. Alguns dias depois do festival eu estava mandando uma letra pra um amigo compositor. 

Surgiu a oportunidade de participar de uma oficina sobre o processo criativo da canção com dois ícones da música nativista. Acabei sendo o letrista de uma canção coletiva. O processo de criação de letra foi totalmente intelectual, me levando a mesma conclusão que a comédia: nem sempre aquilo que a gente mais gosta de escrever é o que funciona. 

Entre as leituras que fiz durante o isolamento, um livro que trabalha dinâmicas para o desbloqueio da criatividade me levou a reconhecer algumas crenças que acabei introjetando ao meu processo criativo. 

Percebi o quanto tive uma conduta antiprofissional com as obras que tive a responsabilidade de levar ao palco. Embora até hoje eu dê risada e faça piadas do diretor de palco me ligando porque queriam começar o festival e minha música era a primeira concorrente. 

Eu estava tão bêbado que disse pro diretor de palco mandar qualquer concorrente fazer um show de abertura voz e violão enquanto a gente não chegava. Eu esqueci o violão que recém tinha comprado no ginásio na primeira noite do festival. O álcool carregou o resto das lembranças desta Coxilha. 

Encarar todas as lembranças me mostrou o quanto eu vinha encarando as minhas músicas com certo desprezo. Sob certo aspecto, pelo fato de ter começado a passar trabalhos nas triagens na época da faculdade de Direito me levou a crença de que eu não dependia disso pra viver, me levando a nunca ter compromisso com o meu trabalho poético e musical. 

Fiz um levantamento e constatei que no período de cinco anos, entre 2005 e 2010, gravei seis canções. Destas apenas uma permanece inédita. Tenho ainda pouco mais de uma dúzia de músicas que comecei a gravar e nunca terminei ou nem comecei as gravações. 

Revisitei melodias e harmonias que estavam engavetadas nas memórias mais remotas. Decidi então trabalhar em um planejamento para o registro de todas estas obras, através de um processo racionalizado de gravações por meio de um cronograma. 

Além do registro destas obras, pretendo definitivamente aceitar o meu trabalho como poeta, trabalhando o meu processo criativo de forma racional. Por isso estou desenvolvendo um projeto para as redes sociais onde pretendo compartilhar ferramentas de escrita poética, exercícios de escrita e de desbloqueio criativo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Das travessias intrínsecas

Lembro que eu devia ter por volta de dez anos, estava jogando bola na frente de casa quando ouvi o burburinho de que meu irmão tinha sido at...